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sábado, setembro 14, 2013

Essa é clássica

Telefone toca, ele atende. 
- Fala, véio. 
- Alou?
- Fala, véio! Sou eu. 
- Olha, não tem ninguém aqui. E outra, velho é seu pai!

Eu escuto isso desde criança, e talvez por isso eu ainda ria do mesmo jeito. 

terça-feira, agosto 06, 2013

Papai sabe tudo

Então eu precisava pagar uma conta, só que não estou conseguindo resolver pela internet com o banco e precisaria pegar um avião para poder ir a um caixa eletrônico. E então escrevo pro velho, pedindo pra ele resolver pra mim. Eis que ele responde:

Calote. S. M. Dívida não paga e/ou contraída sem intenção de pagamento.
Possível origem do frances: culotte ou do proprio portugues: calo. De
todo modo, significa a mesma coisa: não pagar uma dívida. Se a expressão
veio do frances é porque, no dominó, culotte designa as pedras que os
parceiros não puderam colocar em jogo. O mais provável é que tenha vindo
do calo, fatia de queijo ou de melão que o vendedor ofertava nas feiras
ao comprador, para que este experimentasse o sabor. Se um aproveitador,
zombando do vendedor, comia e não pagava, dava calote. Calotear. V. t.,
não pagar o que deve.

Abusada,Adj, f. Aquela que passa a dívida para o pai.

Pai maravilhoso,adj. raro. Aquele que paga os calotes da filha.


Ae...ae. ae.


Fantástico...

terça-feira, junho 11, 2013

Sinopse da família

- Já ouviu falar numa série chamada The Sopranos, pai?
- Já.
- Conhece? Já viu?
- Ainda não.
- Então, to com a primeira temporada. Sei que é sobre máfia, tava numa lista como a melhor série já feita pra TV. Como está em final de temporada de todas as séries que vejo, resolvi checar.
- É, era uma família muito grande. - Parei o que estava fazendo. Ele continuou - uma família grande. - Nunca é bom quando ele repete. -  E tinham o hábito de se juntarem. - Ele começou a gesticular com as mãos, tipo ganhando tempo. Mau sinal. - Sempre juntos, nas datas importantes, comemorações. E ele se juntavam para comemorar aniversário. Sempre festas muito grandes. - Fui apertando os olhos, sabia que vinha uma pesada. - E eles acendiam velas, só que todos sopravam juntos.
- Pai, não!
- E eles ficavam lá, soprano.
- Poxa, pai!
- E daí ficou Família Soprano.


quarta-feira, março 20, 2013

Sobre morto e catolicismo

Hugo Chavez morreu. Com certeza ficaram sabendo, senão pela notícia, por todo o tipo de piadas que fizeram, ou então pela capa da Veja com uma imagem muito próxima a qual Satã colocaria em sua foto de perfil do Facebook. Bom, se a Veja o aponta como o avatar do Capiroto, tudo indica que foi um grande homem e trouxe alguma contribuição significativa - e sobretudo boa - ao seu tempo. Mas devo dizer que tal destaque da semana não operou sobre minha opinião quanto ao falecido presidente. Não, não quero me fazer de descolada e mega-politizada, mas já há algum tempo que passei a filtrar bem a imagem que se pintava dele. A data não tenho precisa, mas eu lembro quando foi. Chato-pai é uma das maiores fontes que tenho para compor minhas opiniões. Não, não concordo com absolutamente tudo que ele diz, mas se ele tem uma especialidade, uma habilidade incrível, um dom jedi é o de trazer uma outra perspectiva sobre a maior parte das coisas das quais se escuta opiniões enlatadas. Vejam essa: uma vez conversávamos sobre a Revolução Cubana e seus líderes, perguntei se ele a favor do Fidel, mesmo com sua ditadura.
- Sim! Porque foi o início de um regime autônomo, sem a interferência dos EUA, sem o Imperialismo. É lógico que há de se ter problemas e polêmicas, mas isso também precisa acontecer para que se chegue a uma maturidade política. Por que você acha que a Mídia fala tão mal do Chavez?
Quando meu pai diz certas coisas, eu quase consigo ouvir um barulhinho dentro da cabeça, tipo assim. Sim, eu tinha muita pinimba com a turma de líderes latino-americanos, torcia o nariz para cada camisa do Che que via,  mas elas caíram por terra, todas, ali, naquele momento.
Quando Chávez faleceu, eu já sabia que havia mais motivos para luto do que para festa, e o grande e célebre responsório de notícia semanal do Brasil (com ironia, por favor) reforçou minha tese. Lógico que há aqueles que gostam de fazer uma oposição com ares mais ponderados que dizem "ah, mas ele não era nenhum santo". E é basicamente esta afirmação que me poe mais a refletir. Primeiramente, a gente se pergunta se algum político pode ser santo; se é este o rótulo que uma pessoa deve receber, talvez o lugar dela não seja bem à presidência de um país, ou em qualquer cargo de chefia. Curioso mesmo é pensar que há gente que espera encontrar um santo num comando. Até por que, ou bem você comanda ou bem você faz marketing pessoal de boa praça. E então eu começo a me perguntar por quê, como, onde e quando alguém espera encontrar um santo. Santos não existem, santos não fazem nada, ninguém nasce ou vive santo. Aliás, os santos que existem só chegaram a esta condição - ou status - depois de mortos, e muito mortos. E ninguém é mero mortal morto e vira santo. Precisa-se antes virar beato, que é outra coisa que, por si só, leva tempo. Depois de muito rolar de água, alguns poucos conseguem o estrelado santificado, mas só muito depois, depois quando ninguém mais lembra seu rosto direito, se você cutucava o nariz, se tinha paciência com o vizinho, se amarrava bem o saco de lixo pro gari não ter problemas na hora da coleta, se desperdiçava água ou se conversava alto debaixo da janela dos outros tarde da noite. Pessoalmente, eu creio que haja aí um elemento de sorte, existe um certo ponto da vida do qual você não pode avançar, morrer, e não muito tarde, é de vital importância para o processo. E para fundamentar isso, eu posso lançar mão das palavras de um grande homem, "ou você morre herói ou vive o suficiente para virar vilão". Harvey Dent sabia das coisas, ninguém chega à promotoria de uma cidade de Gotham desprovido de sagacidade. E, bom, heróis, santos, convenhamos, a diferença é pouca, se de fato há.
Citando outro sábio, cujo nome a postagem no Facebook não menciona, "se um dia te chamarem de ninguém, fique feliz, ninguém é perfeito"; eu tomo as palavras e levo para outro lado. Se reclamam de você é porque você é alguém.

segunda-feira, maio 28, 2012

Correspondência II

Muitos sabem, minha relação com o meu pai é uma das coisas que mais me fascina na minha própria existência; um ato reflexivo de maravilhamento, uma benção, chamem como quiserem. Se eu fosse de algum povo primitivo, construiria para ele um totem, um altar, qualquer coisa assim; mas não sou – se para a sorte ou azar fica a dúvida –  então faço pra ele uma coluna no meu blogzinho. Quem testemunhou minha relação cotidiana com o meu pai colheu boas risadas. Então a distância que se impôs é, na verdade, uma variável importante para que nossa correspondência virtual tenha sido enriquecida. Se fosse antigamente, todo este corpus produzido seria compilado em um livro com capa romântica para que as gerações futuras pudessem rir e se emocionar. Mas vocês já sabem... vem tudo parar aqui. Um dos últimos emails dele me fez rir alto no meio da rua quando recebi a notificação pelo celular. Primeiro vamos ao contexto: ano passado eu fiz um pedido de alguns beleléis em um site chinês especializado em bugingangas, daquelas que a gente jura que precisa; o preço e o frete gratuito são argumentos convincentes para fazer-nos crer de verdade que são indispensáveis. Uma delas era uma colher simpática cujo grande barato era a possibilidade de ser apoiada no copo ou na xícara. Este mês elas chegaram. Eu sei, demorou. O frete é grátis, lembram?
Então eu recebo:


1- foi entregue via aquele canal de contrabando que você estabeleceu com a
China duas "colherinhas" ou "colherezinhas" ou seja alguma coisa parecida
com um objeto bastante usado no café dos povos civilizados. Aliás quem
começou tudo isso foi o "Thomas Becket", aquele favorito do Rei mas...deixa
prá lá.  Bom, vieram duas amostras de algo parecido com colher, mas vieram
defeituosas, torcidas, entortadas no cabo e deu um trabalho enorme para
desentortá-las... tive que levar para uma oficina etc...etc. mas ficaram
boas. Enfim que faço com elas?????

terça-feira, maio 15, 2012

Sobre saudades

Ao telefone com meu pai, ele me diz que ia à casa 101, a original.
– Quer alguma coisa de lá?
– Ai, sim, meu piano – desabafei.
– Ah, sem problemas, eu mando aos pouquinhos, primeiro umas teclas, depois os pedais...

terça-feira, dezembro 20, 2011

Lição de papai

Quando eu era adolescente, era metaleira-revoltadinha-subversiva. O que é algo bom. Eu poderia ter sido pagodeira, funkeira ou até conformista. Convenhamos, revoltadinho todo adolescente é.
Foi marromeno na época que eu estudava no colégio de freiras, e todo o papo de Catolicismo tava me dando um entojo daqueles. Naturalmente, eu queria ir contra. Sendo assim, eu exercia meu senso crítico sempre que podia, e isso significava querer comer carne na Sexta-feira da Paixão. Numa dessas, saí com o Chato-pai para almoçar. Pedi bife com fritas. Meu pai me chamou atenção, mandando que eu escolhesse algo sem carne.
-- Mas pai, eu não ligo para isso.
-- Então vai devolver o ovo de páscoa?
Calei minha boca. E para sempre. Nunca mais pedi carne na páscoa. E não porque não quero devolver meu chocolate. De fato, sou capaz de abrir mão dele por inteiro, como já fiz várias vezes. Acontece que quando o meu pai me fez a pergunta acima, ele me ensinou, primeiro, que eu devo saber muito bem que posturas estou assumindo para que eu seja capaz de assumí-las verdadeiramente, disposta a aceitar o total sucesso delas; segundo, que posso ser contra qualquer coisa, mas, acima de tudo, tenho que ser a favor do respeito. Eu posso não compartilhar do espírito da estação, mas se eu me sento a uma mesa com pessoas que estão lá para celebrá-lo, sou eu que devo destoar do clima jogando na cara das pessoas o que acho ou deixo de achar?
Não sou católica, mas acho que o Natal é uma data importante para nos lembrar certos valores. É bom que nos lembremos deles. Senão, é melhor fazermos qualquer outra coisa, até mesmo aceitar que fiquemos sem presente. Meu pai sempre tem o maior cuidado em fazer a decoração de sua casa para o final do ano. E queria que houvesse um jeito de explicar o prazer que tenho em ajudá-lo, em estar com ele e compartilhar um momento que não precisa ter data e hora marcada ou que haja um traje ou um comportamento determinado para isso. E para mim, aí mora o Natal. Em estar com a minha família, pelo simples fato de estar com junto, sem o compromisso.
Esse ano, por ter viajado, não arrumei a árvore com Chato-pai, e admito que isso me fez falta. Desde que parti, venho trocando emails com ele, sobre antigos amigos, CDs de Jazz e o que tenho visto aqui. E olho para minha relação com ele e vejo como é bonita, como nos reconhecemos, como há coisas que só ele entende e que nós dividimos. E aí mora o que significa familia. Há diferenças, mas elas se perdem nos decalques de amor que têm vastidão marítima, e podem até, assim, virarem tesouros.
Em breve estaremos juntos de novo, juntamente com o futuro senhor Kath. E aqui o meu sorriso me cala. Feliz natal!

domingo, agosto 07, 2011

Conversa de vinho

Historicamente, Chato-pai tem uma mania adorável de brincar com qualquer pessoa que venha atendê-lo em algum lugar,não importa se for  um servente, caixa de mercado ou promotora de vendas. Foi ele que, ao olhar para uma cestinha de pães nomeada de "torradas de ervas, senhor", perguntou:
— Ervas colombianas?
Pobre garçonete, sem nem um pingo de presença de espírito, respondeu a ele:
— Não, senhor, ervas nacionais.
Mas respostas como essas não o desencorajam neste tipo de comportamento, logicamente que o estimulam. Sempre que a caixa do mercado que ele frequenta pergunta se ele "não encontrou algum ítem desejado em nossa loja", ele nunca tem dúvida:
— Dinheiro. Procurei, procurei, perdi um tempão, e nada!
Ontem, sábado à noite, eu e o futuro sr. Kath decidimos jantar com esta ilústre figura que povoa o imaginário dos meus — cada vez mais raros — leitores. Não sei bem se foi o clima de sábado à noite, o tempo frio ou a água que serviram no avião ao meu pai mais cedo, mas ele já estava aquecido do momento que sentamos à mesa. O garçom, solícito e atencioso, trouxe logo o cardápio e a carta de vinho. Chato-pai não perdeu tempo:
— Opa, isso que eu queria, a cartinha — disse com as mãos apressadas para ler o Tempranillos e Carmenéres.
— Isso, senhor, a nossa cartinha.
— Mas cartinha? Não tem cartão?
[pausa]
Como vocês bem se lembram, tratava-se de um funcionário solícito e atencioso. Deu maior atenção à piadinha.
— Sim, senhor, — dizia entre risos — cartinha é como chamamos...
Uma garrafa de vinho depois, vocês podem imaginar que a situação não melhorou muito; pelo contrário, a figura do folclore kathiniano estava cada vez em melhor forma. Quando o mesmo garçom veio recolher os copos vazios e oferecer mais bebida, meu pai perguntou se ainda gostaríamos de beber mais, ao que respondi que já estava satisfeita. O futuro sr. Kath, que adora ficar de conchavo com o sogrão e dar moral pro véio, disse que  o acompanharia. E então o garçom nos ofereceu a garrafa fracionada. Mesmo quando não há brecha, Chato-pai cria.
— Vocês vendem como?
— Nós dividimos em terços e nós cobramos o preço da garrafa dividido, sem acréscimo, de acordo com quanto o senhor consumiu. Então pode ser um terço, dois terços...
Meu pai fez aquele olhar que eu sei o que segue:
— E se eu quiser 4 terços?
Então os olhos do garçom pairaram no ar por dois segundos, e sem sair de onde estavam, ele respondeu:
— Aí não pode.
— Não pode?
— Não — prosseguiu olhando para nós. — Minha filha falou que não podia — terminou sorrindo e saiu logo em seguida.
Sábado à noite, pessoas que se adoram aproveitando a companhia umas das outras enquanto comem boa comida. Ainda que o clima não estivesse tão agradável, com este comentário do pai da menina estudiosa, tudo ficaria melhor, sem dúvida. Fofo no último!

quinta-feira, março 24, 2011

Nem tudo é piada

Ao contrário do que posso fazer parecer aqui, Chato-pai não é apenas essa maquininha frenética de pegar no pé e fazer piadas, é uma das minhas maiores fontes de aprendizado, e, apesar de não tomar sempre este enfoque sobre ele aqui, jamais escondi esse fato.
Talvez vocês não se lembrem, mas eu estive fora recentemente, na Argentina, fazendo uma viagem sobre a qual ainda não parei de comentar aqui, essa mesmo. Semana passada estávamos na sala da casa dele, fazendo mais uma parcela dos comentários sobre minha experiência na tierra de los hermanos.
Como já foi dito em alguns posts anteriores, eu fiquei em um hostel. A primeira vista, para quem não conhece, a idéia pode não ser das melhores, a gente pode pensar que se trata de um muquifo, sujo, desorganizado, ainda mais compartilhando banheiro com outras pessoas. E os fatos são bem diferentes disso. O lugar é limpo, organizado, os funcionários são solícitos. Meu quarto, por sua vez, dividia parede com a cozinha do meu andar. Na maior parte do tempo, ela ficou sem o menor movimento, salvo o de pessoas que iam buscar suas garrafas de água dentro da geladeira. Nas duas semanas que fiquei lá, percebi que quando havia algum movimento por ali que quebrava a faixa de som do lugar era de brasileiros. Do meu quarto eu já conseguia ouvir os caras conversando do corredor como se estivessem num vestiário masculino depois de uma partida, falando coisas que eu também não acho que deveriam ser ditas a plenos pulmões. Chato isso, sobretudo porque eles não tinham a menor atenção a horário. Por três vezes eu precisei pedir silêncio na cozinha depois da meia-noite, em todas elas, falei em bom português sem ter a menor dúvida se seria entendida, e duas dessas vezes foram para o mesmo grupo. Sério, chega a dar vergonha. Outra coisa que percebi também que era só durante o tempo que se ouvia falatório mais alto no corredor que o banheiro compartilhado não se encontrava tão arrumado e limpo conforme o cartaz do azulejo pedia. Se no absoluto a coisa não foi bonita, no relativo ela piorou. Porque depois que saíram esses brasileiros de lá, entraram uns japoneses, o que fez a diferença virar um abismo.
O japa, por sua vez, usava a cozinha para fazer seu jantar, e ele viajava todo equipado com sua panela elétrica, seu arroz e tudo mais. O cara tinha um horário de comer bem noturno, meia-noite tava lá o cara na cozinha com a barriga na panela elétrica, às vezes vinha alguém comentar alguma coisa com ele no seu próprio idioma, e fui percebendo que eles conseguiam fazer mais barulho com a porta do armário do que falando. E o banheiro, não importava a hora que ele tinha ido tomar banho, tava sempre um brinco.
Fui também apontando o que havia observado de outros turistas, como os alemães que tentam ao máximo se fazer entender no idioma local, ao contrário dos anglófonos que acham mesmo que basta serem falantes da língua franca do mundo.
Ouvindo essas coisas, meu pai, com sua vivência e percepção aguçada das coisas, comenta:
— Enquanto para o europeu e o japonês educação é um sinal de civilidade, para o brasileiro é sinônimo de subserviência. Brasileiro gosta mais é de ocupar espaço, não colaborar e ainda bater no peito para dizer que tá pagando.
Poucas vezes vi uma síntese tão precisa quanto essa. E, de tão precisa, me envergonha muito.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Regalos por papa

Chato-pai, vira e mexe, sai por aí, passa um final de semana fora, volta, não liga para dizer se chegou bem ou ao menos vivo. Mas aí me liga como se eu tivesse ido passar um tempo do outro lado do oceano sem nem avisar, dizendo que eu sumi. Então pouco antes de viajar, ele me liga:
— Oh, Malinha, vai quando para Buenos?
— Na segunda, Lord.
— Segunda? Já? E não ia me ligar, não? Ia chegar lá de uma vez e me mandar um postal dizendo "saudaciones, papa, estoy a cá en la tierra de los hermanos"?
— Ai, pai, que horror, claro que não! Que idéia, você bem sabe que não escrevo postais.
Mas então estou a cá e escrevo a ele — um email, que fique bem claro — perguntando o que ele quer. Para ninguém dizer que invento história sobre esse pobre, simpático e ameno senhor, transcrevo aqui:

Hola Maletita...que passa???

Si si, yo lo quiero dos cosas:

1- el bandoleon do Astor Piazzola.
2- los manuscrito de Mafalda.

Se pude conseguir.???

Como dizer não?

quinta-feira, setembro 02, 2010

Mão na roda

Meu pai, na semana passada, me pediu ajuda para dirigir um dos carros para fazer a vistoria. No probs! Liguei para ele na noite anterior, para confirmar se ainda seria necessária as minhas habilidades condutoras.
— Você já dirigiu carro automático?
— Sim, inclusive peguei estrada.
Marcamos na casa dele, uma hora antes do horário que ele havia marcado no DETRAN. Ok.
Na manhã em questão, uma hora antes do combinado, liga ele:
— Você já está a caminho?
Eu tava começando a me arrumar. Não moramos tão longe um do outro.
Enquanto eu estava no trânsito, ligou ele, dez minutos antes da hora marcada.
— Você já está chegando?
— Pai, to a caminho. Ainda falta.
— No meu relógio não.
Apesar de todo o engarrafamento que peguei, cheguei à casa dele numa pontualidade britânica. Ele estava sentado no sofá, como se na verdade fosse de madrugada e eu tivesse 12 anos. Fomos à garagem. Eu entrei no carro, ajeitei os espelhos e tentei me habituar. Trata-se de um sedan, não apenas sedan, mas um dos grandes, que depois vim descobrir que os pedais são de manteiga e extremamente sentimentais. Eu constumo chamá-lo de cruzador estelar. E a garagem, por sua vez, não é das piores, mas tem um espaço limitado para manobra, com pilastras por todos os lados e os carros dos vizinhos. Mas o meu maior medo mesmo era o olhar cerrado do meu pai.
— Faz uma manobra aqui para se acostumar com ele.
Perfeito, é assim que você se acostuma com um carro, manobrando dentro de uma garagem apertada, acabando de descobrir que os pedais do carro funcionam mais por pensamento do que por toque, com o Darth Vader respirando do lado de fora do vidro. Pois bem, lá fui eu. Com muita calma, muito jeitinho, muito amor no coração e muito medo, coloquei o carro paralelo à vaga em que estava. Lord Vader postado do lado de fora, olhou, com aquele jeito dele de mão na cintura, cotovelos bem abertos e cara de algo vai mal.
— Acho melhor eu levar só um hoje.
E menos de cinco minutos depois, estava o portão da garagem fechando, comigo do lado de dentro, e ele indo embora confortável atrás do volante.
— De nada, pai — ele não escutou, mas eu falei.

sexta-feira, agosto 06, 2010

K.O.

Eeeh, agosto! Se já é um mês ruim sem nem um feriado no final do túnel para todos, para mim também traz outro sofrimento: dia dos pais e o aniversário do mesmo. Eu já choraminguei aqui antes sobre as agruras de presentear o homenageado do mês, mas, sério, não importa o quanto eu fale, é pouco. Passei minha tarde ontem subindo e descendo o Botafogo Escada Shopping atrás de alguma coisa. Quando me convenci de que não havia nada de proveitoso nas lojas, até pensei em ir no estacionamento roubar um carro, mas até isso ele já tem. Acontece que já tenho uma margem de tolerância baixa a lojistas, vocês sabem, mas se agrava quando eles pensam que têm soluções maravilhosas e facílimas para resolver meu problema, quando sequer já viram o meu pai. Ontem, por exemplo:
— Seu pai bebe?
— Oh, sim, um entusiasta de vinhos.
— Ah, fácil! Dá esse kit de saca-rolhas.
E aí eu tenho que ser educada e recusar com gentileza ao invés de falar "ah, que bom! assim meu pai vai poder passar a beber o vinho ao invés de ficar olhando para ele dentro das garrafas". Como as pessoas acham que ele tem aberto garrafas todos esses anos?
— Tem também esse conjunto de taças aqui. Com certeza ele vai gostar.
E aí eu seguro outra resposta do tipo "ah, melhor ainda! agora ele não vai mais precisar beber o vinho do gargalo". Sério, gente, pensa que não dói! É como você inventar de dar um carro para um piloto de Fórmula 1. Se ele gosta da parada, ele já se equipou com, no mínimo, os ítens básicos.
Não bastasse isso, há o fato de eu carregar Chato-pai comigo. Naturalmente que eu faço esse tipo de investigação no shopping — infelizmente não chegou a ser "compras" — sem ele. Mas eu tenho ele comigo tão bem, mas tão bem, que eu sei o tipo de crítica que ele vai dar em cada presente. "Coisa de velho", "que baboseira!" e "pra quê isso?" são as mais populares.
Mas esse ano eu cansei. Mesmo. Não tenho mais mufa para queimar com isso. Então decidi que vou dar a ele um saco de cimento, num embrulho bonito com laço e tudo e um cartão. Explicando que esses anos todos esgotaram o comércio e a mim, não há mais presentes possíveis, então um saco de cimento é legal, é grande, pesado, faz volume e ele, como bom engenheiro, vai saber transformar aquilo no que bem entender.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Telefonema

Liguei para o Chato-pai. Ele atendeu:
— rhrprhprhphrhphprhphrpr...
— Lord Vader?
— rhrprhprhphrhphprhphrpr...
— Pára, eu sei que você é meu pai. 

terça-feira, agosto 03, 2010

Correspondência

Para vocês não acharem que Chato-pai dá descanso a mim com a sua personalidade encantadora, reparem no e-mail que ele me manda:

Prezadissima Mala,
 
Segue o email da fulana: fulanadetal@gmail.com.
 
 Voce já ouviu falar de nuanças???? seria a mesma coisa que 
nubígena??? estas duas palavras estão intima e extramamente 
relacionadas pela numária, que talqualmente propõe as 
conjuminâncias das merecedências das conjugações adverbiais.   
e assim passan los dias... quiças...quiças!!!! understandable??? or 
is it a fact not easily apprehended???
 
De mi consideracion...y cordiales saludos.
 
Chato-pai (Sir)
 
Não bastasse o conteúdo, o negócio é trilíngüe...  

quarta-feira, maio 12, 2010

Parabenizando

Dei um concerto ontem, repertório pesado, mas saiu tudo lindo e eu dei conta. Uma conquista e tanto! Chato-pai, naturalmente, estava na platéia, isso porque eu tinha avisado que se ele faltasse, quem ia passar a pagar a minha terapeuta era ele.
No final do concerto, as pessoas vieram me cumprimentar, algumas emocionadas, outras ainda arrepiadas, e algumas situações curiosas, uma moça ficou esperando eu falar com cada um de lá até vir falar comigo, fazendo alguns dos elogios mais deleitosos que recebi na noite e ainda querendo meu autógrafo; um outro colega meu me agradeceu por tê-lo convidado e dado a ele a oportunidade de me ouvir, uma outra senhora se meteu no meio da foto e me não saiu até contar a sua história toda, e teve um sujeito que tava tinha passado uma colônia da fragrância cachaça que veio dizer que algumas coisas eu não tinha cantado tão bem e tal. Tudo bem por mim, acho mesmo que opinião do público não se corrige, cada um tem direito à sua e a nós cabe concordar ou não, guardei cada uma das reações das pessoas com muito carinho. Estiveram lá representados a instituição dos Designers Justiceiros, me pediram autógrafo também e eu até pensei em escrever "aos desingers", mas achei melhor não.
E teve o ilústre Chato-pai, hoje também sob a alcunha de Lord Vader, já que quando ele liga é a Marcha Imperial que toca; o que me transforma na Princesa Leia.
Depois de algumas arroizadas de festa, ele vem:
— Tira aqui uma foto comigo e com a sua avó.
Sem problema, um amigo querido me fez a gentileza de colocar seus dotes fotográficos ao meu serviço, a foto ia ficar ótima.
Depois de um tempo, vira e mexe, começa ele a perguntar se ainda íamos demorar muito porque a reserva do restaurante estava marcada para as 21h. Mais um pouquinho de tempo depois, ele começa a me perguntar se eu e minha distinta companhia podíamos ir para lá depois, porque ele tinha que chegar logo e se não perderíamos a reserva. Disse-lhe que dali a cinco minutos eu iria.
Ele desceu. Ele voltou, para avisar que já estava indo e que eu fosse depois, e me disse o nome do restaurante e perguntou se eu sabia onde era.
— Não.
— Ah, eu preciso ir! Já tá quase na hora e eles não vão segurar a nossa reserva.
— Eu não tô discutindo. Tudo bem. Aliás, gostou do concerto?
Ele fechou a cara, me olhou sério e respondeu:
— Hm, gostei, ué, que coisa!
E saiu logo depois disso, para que não ficássemos sem lugar para comer.
Despedi-me com calma dos remanescentes, desci as escadas com mais calma ainda — único jeito de se descer escadas depois de mais de uma hora em pé sobre saltos agulha de mais de 10cm.
Mas encerrando o suspense, Chato-pai chegou a tempo de pegar a nossa reserva. Nos reunimos lá, depois, um restaurante muito bom, aliás. Não foi difícil encontrá-lo, era a única mesa ocupada do salão.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Regalo de griego

Ha, Chato-pai aliás me ligou. Ele viajou para a América Latina (tá, ok, pode dizer que ele não foi muito longe) e me escreveu perguntando o que eu queria além do cachecol que eu sempre peço. Respondi:
"Ah, sei lá, traz algo que você ache que tem a minha cara, que você bata o olho e goste."
Liga o figura ontem, e ainda teve a coragem de falar em portuñol:
— Eu vi algo que tinha a sua cara, mas não vou poder levar, nem consegui tirar uma foto, era uma lhama.
— Se era a minha cara era a sua também.

sexta-feira, outubro 02, 2009

In vino veritas

Chato-pai me deixou um recado de mais de um minuto na secretária eletrônica, começou com suas piadinhas de costume, que eu adoro, e logo desbancou em tom mais grave falando que a arte é inútil, cuja única função é confortar; não sendo a obra ou o produto artístico, mas sim o o momento do fazer-artístico. Disse também que é mecanismo para que se estabeleça o padrão.


Hmmmm


Não sabia que meu pai andava lendo Oscar Wilde, ele mesmo declarou não haver nada mais inútil. Mas de acordo com o que ele mesmo escrevia, aquilo que ele dizia não era para ser levado tão a sério, vide lord Henry Wotton (personagem, aliás, que eu adoro). Quanto ao conforto do fazer-artístico, eu perdôo, Chato-pai é engenheiro, acha que fazer arte é mole, relaxante e fácil. Às vezes não há mais inqüietante do que a criação, nem mesmo do que a contemplação do objeto.
Sobre padrão, nada foge a isso, trata-se de uma propriedade da condição humana, tudo que fazemos está sujeito a um padrão e é a tentativa do estabelecimento deste padrão.
Mas o que eu acho mesmo, e disse-lhe isso, que a arte é o que nos separa dos animais sem anular nossa condição animalesca, mais ou menos como aquela frase maravilhosa do Millor, "O homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que realmente é". E é interessante observar como o homem é um fenômeno artístico, assim como linguístico e religioso. Nunca houve um sociedade sem uma língua, uma religião ou uma forma artísitca. E, em geral, estas três coisas estão relacionadas entre si, e definem a existência de seus criadores, trata-se da alma de um um povo e da compreensão dele sobre ele mesmo.
Por outro lado, Chato-pai, para mim nada é mais inútil do que vinho, que, ao contrário da arte, é exclusivamente elitista, e ainda mais quando é o motivo para o Renato Maischato ficar falando sem parar e as pessoas quererem fazer cara de inteligente ao ouví-lo.
— Este vinho é pretencioso, com um quê de Provence antiga sob a chuva.
Ah, vai!

quarta-feira, setembro 16, 2009

Corporativismo

Chato-pai me ligou ontem tarde da noite para me dar bronca, dizer que sou impressionante por ter postado isso aqui. Segundo ele, coitada, só porque deu uma desafinadinha eu já caí matando. E ainda completou dizendo que cantor é uma classe desunida.
Só queria dizer que não sou da mesma classe que a estupenda cantora. Eu, ainda que possa desafinar, sei ler.
E correndo para completar, também sei cantar o Hino, oras!

segunda-feira, agosto 24, 2009

Chato-aniversário

Chato-pai vai fazer aniversário. E o que é uma data de festejo para ele é uma data de pesadelos e dores de cabeça para mim. Alguém faz idéia do que é dar presente para o Chato-pai? Acham que ele recebeu esse apelido porque tem uma filha metida a engraçadinha e só? Não, é porque só tem 4 coisas nessa vida que ele não critica: Jazz, vinho tinto, campeonato de tênis e... e... não lembro da quarta.
Então parece muito fácil, afinal eu posso comprar um vinho e dar para ele, certo? Errado. Não se dá uma garrafa de vinho para a pessoas para quem os outros ligam querendo saber que garrafa comprar. Então eu posso comprar uma raquete de tênis! É como você inventar de dar um violão para o Turíbio Santos, você vai comprar algo abaixo da qualidade que não vai dar na mão dele.
Sobra então o Jazz, esse oásis de dissonâncias. Não se esqueçam que meu pai está completando 60 anos, que pensam que ele ganhou em todos os aniversários, natais, dias dos pais e qualquer outra data anterior?
Sério, se alguém tiver uma boa idéia, postem-na nos comentários. Devo ler a tempo da festa. Caso contrário, limitem-se a serem solidários com a minha causa e não falarem idéias descartadas, absurdas ou já velhas.

sábado, julho 25, 2009

O pai e o pão

Depois que minha febre havia baixado, eu já me senti tão melhor que resolvi fazer piadinha com Chato-pai:
— Havia três tratores, daqueles com rolo compressor, trabalhando na rua. Então caiu lá um pão duro. Foi o primeiro, passou uma vez, deu ré e passou de novo. O pão continuou lá invicto. Então foi o segundo, fez a mesma coisa, e o pão se manteve na rua, sem nem se descabelar. Então o terceiro, que era o maior de todos, resolveu passar por cima. Nada aconteceu ao pão. Qual a moral da história?
Meu pai pensou, olhou um pouco para o infinito, limpou a garganta e disse com sua voz grave:
— A vida dos adultos passa pelo pão nosso de cada dia.
Fantástico. De tão chocada com a resposta, fiquei até com pena de dizer que na verdade era "a ordem dos tratores não altera o pão duro".