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quarta-feira, julho 17, 2013

Sobre era glacial e papo-calcinha

Homens não conversam sobre seus problemas. Discorda de mim? De mim?! Não, não de mim. Quem falou isso foi o Manny, em Era do Gelo III, quando sua mulher o manda ir conversar com seu amigo felino. Isso mesmo, palavras dele, ele foi taxativo e ainda falou mais: homens só se dão aquele soquinho valeu-champs no ombro, e que isso, estúpido só para as mulheres, equivale a seis meses de terapia. Você pode achar que não é verdade, mas quando uma criatura muito mais velha do que eu, você e até do que o Niemeyer diz alguma coisa, é quase científico. Então Manny tem total razão, já sabemos, seis meses de terapia. Mas eu ainda posso ao menos achar que se trata de uma terapia ruim, daquelas que seu psicólogo combina um bigode descolorido com um coletinho por baixo do terno só para parecer mais confiável enquanto faz rabiscos no papel ao som de você com seus problemas.
Curioso é que estou tentado escrever este post há meses, talvez há mais tempo do que um ano, já. Só este parágrafo aí acima está pronto há mais de uma estação. Eu tenho um processo curioso na minha escrita. Vou engolindo idéias, repensando, reavaliando um monte de coisa, testando coisas que nem são teorias, até que em algum momento, depois de uma longa gestação, nasce algum troço aí com serifas e vírgulas, sempre muitas vírgulas. Com este aqui não foi muito diferente, mas preciso dizer que desta vez, fiquei grávida por muito tempo; e posso dizer que estou em trabalho de parto há mais horas do que o costume. Você, aí do outro ladinho do espelho, pode se perguntar o que há de tão difícil em escrever sobre isso. E eu diria que a sua resposta, por si só, é difícil de dar. Às vezes o texto simplesmente não sai, ainda não encontrou caminho pelo labirinto dos meus dedos, às vezes as teclas do computador são indóceis e se recusam à ordem, fazem as do piano parecerem crianças japonesas indo num passeio de escola. Outras vezes tem um fator intuição, sexto sentido, sensor-aranha, parece que eu estava esperando alguma coisa nova, algum evento inusitado, alguma leitura inesperada aparecer antes que um ponto final fosse dado. E acho que o caso agora vem a ser cada uma dessas possibilidades. Ontem, li isso aqui. O mamute não só acertou como foi endossado pelas práticas modernas. É tipo um Confúcio com marfim e material publicitário.
O que eu venho tentando dizer é que homens vão falar de política, futebol, F1, UFC, carros, sistemas operacionais, cervejas, música, suplementação esportiva, defeitos de suas companheiras, viagens, restaurantes, baladas, ferramentas, cualqué parada, e não necessariamente nesta ordem, mas não vão falar como se sentem, como se sentiram, não importa sobre o que seja. E isto é algo diametralmente oposto nas amizades entre mulheres. Começamos sempre com um "e aí, como você tá? que você conta? como foi lá, gostou? e ele ligou? e o trabalho? clima melhor? e você tá aguentando bem tudo isso?"; e existe uma mágica aí, a amiga vai falar, e a outra amiga vai ouvir, e vai dar apoio, e vai ser compreensiva, e vai se alegrar com a alegria da outra, bem como se entristecer com a mágoa que a outra sofre, e oferecer uma palavra, um alento, para mostrar que nem tudo está perdido, para dar coragem, ânimo ou só um bom abraço.  E pra mim eis o que há de mais bonito.
Em geral, homens se transformam em amigos muito fácil, compartilham alguns gostos, algumas atividades e a amizade se estabelece. Mulheres, por outro lado, demoram um pouco mais, se sentem, como um terreno completamente novo sob a penumbra, se compreendem, e progressivamente vão desnudando suas almas uma à outra, até que a amizade vira um terreno sedimentado, firme, onde sabem exatamente o que podem construir e plantar. Meu pai teria boas metáforas para colocar aqui. Eu lembro de uma fala em O tigre e o dragão em que uma conta a outra um ponto delicadíssimo de sua história, e uma delas fala "agora que compartilhamos nossas histórias, somos irmãs".
Recentemente os homens têm descoberto o caminho para o psicólogo, como forma de buscar auxílio em seus problemas; conheço alguns que a mera idéia de ligar para um terapeuta era mais assustadora do que cair na malha fina da Receita. Mulheres, por outro lado, são mais acostumadas com a possibilidade de psicoterapia, afinal sempre fazem isso com suas amigas, chegam lá, sentam e falam tudo. Ter alguém com mais formação e experiência nisso chega a parecer sedutor.
O que me chamou atenção no texto (se alguém passou reto pelo link acima pode achá-lo aqui de novo) é o fato de um profissional da área - um homem - falar desta questão e ainda conseguir delinear muito bem o que ele vem testemunhando. E isto acontece como resultado deste isolamento que homens passam socialmente. Esta solidão que o texto diz, ao meu ver, vem do fato de homens não serem encorajados e não encontrarem espaço para nomear o que os incomoda ou o que querem de verdade. Quando eu digo de verdade, me refiro aos caminhos, não aos resultados. Família, sucesso e conta bancária gorda são fins; o caminho para chegar até eles, no entanto, pode ser muito variado. Pode ser um casamento feliz ou uma relação desequilibrada e disfuncional; um trabalho desafiador e estimulante ou apenas uma sucessão de forças das correntezas sem que se termine onde gostaria de verdade. Hoje temos mais opções do que nunca, e até mesmo uma sociedade que começa a considerar melhor este universo e não mais taxar tudo isso como desvio de conduta. Lembram que havia uma época em que ser desquitado era vergonhoso ou que era melhor ter uma filha na zona do que no palco?
O senso comum adora dizer que mulheres não sabem o que querem enquanto homens sabem muito bem. Será mesmo? Ou será que mulheres vêm progressivamente se libertando de papéis tradicionais - e aí, consequentemente, se expondo mais a dúvidas e incertezas - enquanto os homens ainda oferecem mais resistência? O texto do Frederico Mattos me chama atenção não simplesmente por estar bem escrito e embasado, mas também porque eu vi tudo isso. Cada homem que entrou na minha vida, nas mais variadas funções e relações, demonstrou este engessamento dentro de papéis tradicionais e cerceadores, e todos sofriam com isso, em maior ou em menor grau. Vejo, em geral um medo abissal de falar o que realmente os incomoda; o que reflete - ou gera? - uma falta de auto-honestidade, uma incapacidade de assumir para si mesmo de que algo vai mal; uma dificuldade imensa de encarar que algo não vai bem, que tem um nó, simples ou complexo. E aí, empurrando esta poeira toda pra baixo do tapete, o terreno vai ficando acidentado, quando tudo era para estar bem. E este "era para" sufoca e arde.
Também, sobre nós, moças, ainda incide esta sombra de culturas mais tradicionais. Ouso até dizer que em alguns momentos, isto pode ser mais nocivo para nós do que para eles, mas vamos criando nossa rede de apoio, nossos mecanismos de ajuda, nossos movimentos de libertação, vamos aprendendo a reclamar. E vejo como isto se refere à minha última postagem; será que homens são tão passíveis como as mulheres de procurar ajuda para um comportamento que está gerando problemas ou preferem simplesmente mascarar isto como algo normal e cotidiano?
Mulheres falam mais, se abrem mais, trocam informações e perspectivas, e assim conseguem ampliar sua percepção de si e do mundo; terminam assim tirando seus medos do armário e vendo o quanto não passam de uma sombra feita pelo poste da rua. Ou não, às vezes o monstro do armário era um baratão voador, seis patas, duas antenas e muita má fé. Mas até pra isso tem solução, chinelo, inseticida, dedetiação.
E se alguém me perguntar, é exatamente por limparmos nossos armários cotidianamente que sofremos menos do coração, de estresse e vivemos mais.



Através deste texto, quero declarar meu amor às minhas amigas, e dizer que sem a amizade delas tudo seria mais difícil, tanto minhas derrotas quanto meus sucessos.  


sábado, julho 13, 2013

Sobre pessoas que não sabem amar

Fui ontem à uma consulta médica. Aquelas coisas, entrei, cumprimentei, me identifiquei e sentei. E aí vejo na sala de espera um pequena pilha de panfletos rosinha. Era um grupo de apoio para ajudar pessoas a largarem um vício. Eu preciso admitir que tenho um certo fascínio por grupos de apoio. Talvez isso tenha aflorado de verdade depois de ter visto Clube da Luta, mas isso tudo vem de antes. Em primeiro lugar, para mim ao menos, grupos de apoio tem aquele magnetismo de histórias policiais. É o tipo de lugar que todos querem nunca precisar ir, mas este universo proibitivo, naturalmente, exerce fascínio. Sim, eu sei, besteira minha, mas fazeuquê? Entretanto, o que mais me cutuca é a possibilidade de uma conversa franca. Quem vai falar, está ali pra deixar suas máscaras caírem no chão, assumir seus erros e olhar sua trajetória com coragem e dignidade, apesar de todos os erros; e quem está sentado a volta vai simples e realmente escutar. Pra mim, mora exatamente aí o mecanismo do apoio, quem fala é honesto, quem ouve é aberto, e ninguém está lá para julgar ou para ajudar exclusivamente ao outro no mais puro ato filantrópico e desprendido. Todos dão e recebem, ajudar ao outro significa me ajudar. Ah, sim, aí tinha esse panfleto do vício, né? Este foi o fato que mais me inquietou. Se intitulava Mulheres que amam demais anônimas, ou MADA. É o tipo de coisa que ao bater o olho, uma pequena turbulência interna acontece; e isso pouco importa de qual sexo você seja. Algumas coisas se chocam, algumas perguntas se formam, algumas certezas caem e - invariavelmente - por um minuto você se pergunta se você não precisaria daquilo. Justo você, forte, absoluto, seguro, com auto-estima, que conseguiu construir uma vida sem vícios. A gente ouve aquele "será mesmo?", nossa definição de vício vira um cogumelo de poeira, que explode, expande, e começa a cobrir tudo de uma camada fina que você não queria que estivesse ali. Estiquei uma mão, abri o panfleto e li ele todinho até o fim. Numa era de smartphones, isso beira o elogio. Passei pelo questionário, com perguntas que precisam de ao menos 5 segundos antes de receberem uma resposta verdadeira. Eram sobre a frequência de ligações durante um dia, da desconfiança de fidelidade, da insistência em agradar sempre os outros, dos cuidados excessivos, de controle excessivo numa relação e a necessidade de assumir responsabilidades demais. Uma coisa que fica delineada é a possível tendência de não estar em contato com a realidade, seja através de discursos, atitudes e sentimentos. Muito pra se pensar, viu? Muitas referências se cruzam na cabeça diante desta leitura; personagens de histórias clássicas que são pura poesia, letras de música, jargões que mulheres que amamos em algum momento nos disseram diante de alguma queixa que fizemos, queixas que ouvimos de amigos e outras pessoas próximas de seus relacionamentos e o que esperavam das mulheres que estavam com eles. Muita turbulência concentrada em tão pouco tempo, em uma pessoa tão pequena, numa mera sexta de manhã. Troquei algumas palavras com a secretária a minha frente sobre minha leitura, ela contou como aquela pilha havia ido parar ali e da reação das pessoas, "sempre pegam um, às vezes quem você menos espera". Trocamos um silêncio e eu disse em tom de brincadeira "sabe se tem algum grupo de apoio para homens?". Ela riu, "devia, né"? Só o tom era de brincadeira. A princípio me veio à cabeça o oposto simétrico, homens que amam de menos, que provocam a desconfiança na parceira ou concretizam a infidelidade, que não querem nunca agradar sua companheira, que não assumem responsabilidades, nem têm qualquer cuidado. E seguindo esta linha, cheguei ainda mais longe, nos homens que odeiam demais. Que cultivam raiva, ódio e ressentimento excessivo daquelas que já estiveram com eles, que difamam ou agridem verbal ou fisicamente, que precisam subjugar a qualquer preço uma mulher que cruze se caminho, que chegam às raias da loucura através de uma violência sexual ou assassinato daquela que os deixou. Infelizmente é fácil demais de se ver casos assim na mídia.
Sim, existem mulheres que precisam frear sua ânsia de serem-felizes-para-sempre como ensinado nos livros pra criança. Precisamos mesmo entender que os caminhos de uma relação - qualquer que seja - são construídos por duas pessoas e ambas têm igual parcela de participação, que fazer concessões não é engolir sapo ou se anular. E fazer um grupo de apoio para isso é ótimo, é chamar a atenção para este aspecto e jogar um pouco de razão nele.
Mas se as relações são feitas por ambos os sexos, não caberia também jogarmos um pouco de luz do outro lado? Creio que aí mora o caminho da calibragem das coisas. Se eu procurasse, seria eu capaz de encontrar um panfleto que tentasse ao menos orientar homens a quebrar seus comportamentos mais nocivos, ou simplesmente incômodos? Talvez você esteja me lendo e achando que isso é mais um daqueles manifestos de moças na casa dos 30 de saco cheio de homens. Se eu disser que não, alguém vai argumentar que minha idade não deixa mentir. Engraçado como na cabeça do povo, ter trinta e estar de saco cheio de homens andam lado a lado. Mas não, não falo isso de qualquer mágoa que eu possa ter, não; embora negar isto não me ajude. Mas oquêi, não vou ficar desenvolvendo o que eu acho. vou mudar de foco.  Curiosamente, uma das várias páginas da internet que acompanho pubicou hoje o link de um vídeo em que um comendiante no seu número de stand up fala do quanto de coragem uma mulher precisa ter para sair com um homem, já que as estatísticas dizem que a maior ameaça à elas são eles. Ri, sim, porque o cara é bom, e achei bem inquietante. Esta verdade estrapola as fronteiras das mágoas femininas. E mais, tiro o meu chapéu para como Louis CK não fez piadas que reforcem práticas machistas e depreciativas; pelo contrário, falou de algo muito sério sem fazer pouco de nada, foi muito inteligente.
E aí, voltando ao apoio a se dar às mulheres, a gente até fica com medo de se confrontar com uma questão incômoda.
Olhemos de volta para o grupo de apoio das mulheres, nos perguntamos sobre vícios e níveis de dependência, e esbarramos com uma pergunta incômoda, que dá quase medo de perguntar. Como saber se o problema está no excesso de amor ou no ser amado?


Caso alguém tenha se interessado pelo grupo, mais informações estão disponíveis clicando aqui.
Atualizado em 17/07: num dos comentário para esta postagem, foi postado o link do DASA, que apoia ambos os sexos em diferentes tipos de vício em relacionamentos. Como esse tipo de coisa precisar e merece ser divulgada, posto aqui, e agradeço ao autor do comentário pela indicação. Bom saber que iniciativas de apoio estão crescendo e se desenvolvendo!

sexta-feira, abril 19, 2013

Sobre exorcismo e natais passados

Sendo alta, tendo voz cheia e alguns kimonos no armário, ninguém acredita muito, mas é fato: por dentro, sou feita de nada, um pastel de banana; praticamente uma ostra, dura por fora, molusco por dentro, e de vez em quando, produzo alguma pérola. Quem convive comigo um pouquinho mais saca isso fãcil, não precisa de muito. Basta um acorde de sensível sustentada um pouquinho mais, uma singeleza quase inconfessa, uma notícia triste que minha vista fica turva, minha voz desanda. E nem tenho cara-de-pau de falar que cairam ciscos nos meus olhos...
Pessoalmente, até eu me canso desse mimimi todo, dessa dependência crônica de rímel à prova d´água e lenço de bolso. Sério, odeio ser assaltada por este reflexo sensível, capaz de me pegar sem o menor aviso motivo. Tento, mas não consigo puxar a frieza dentro de mim diante de certas coisas. Eu já conheci fãs de comédias românticas que conseguiam fazer com que eu parecesse uma menininha de tranças cujo sonho é ser Miss alguma coisa. Vai ver eu sou. Só não sonho em ser miss-alguma-coisa, modelo de alguma fragância da Carolina Herrera, sim. Mas esta explicação não me satisfa, é muito curta. Em parte porque raramente tranço meus cabelos, só fui uma menininha por um período curto da minha vida, mas sobretudo porque ser modelo de 212 Sexy é uma carreira, não um sonho enlatado preso a um livro que todo mundo adora citar mas ninguém lê. A teoria que mais se fortalece comigo é que tudo não passe de história; melhor, histórico, uma grande barragem dentro de mim, litros de água represados que nunca desceram maçãs abaixo, luxos que eu, com meus kimonos, meus filmes de máfia e minha habilidade de trocar lâmpadas, me neguei.
E quem sabe a saída disso tudo seja um pouco de terrorismo, inundar a cidade. Pegar um dia (ok, mais de um) e fazer um retiro, me trancar no meu quarto, munida do álbum 21 da Adele, alguma coletânea com árias das mortes das heroínas das óperas italianas, boas traduções de Hamlet e Édipo Rei, DVDs de A cor púrpura, A lista de Schindler e Amistad, e sem nenhum, nem ao menos um, apoio, nenhuma caixa de bombom, nenhum pote de sorvete, nenhum vinho, nenhuma pipoca doce. Para os momentos de fome, eu contaria apenas com as propriedades frugais de  torrada de pão dormido e água, o que penso serem elementos auxiliadores no processo. E então, tudo que fora edificado em cada vez que meu sorvete caiu no chão, que meu balão estourou, que passei na frente de uma pet-shop pedindo o filhotinho e minha mãe disse não, que fechei a porta em cima do dedo, que meu irmão me falou que eu era feia e que nunca ia arranjar namorado, que o merthiolate doeu (sou velha assim), que eu senti saudades, que eu estudei mas não aprendi matemática, às vezes que senti falta de um abraço, que me senti pequena e frustrada, que meus joelhos doeram e eu não soube o que era, todas as vezes que não abri meu sorriso porque os dentes eram feios, os dias em que acordei e meu cabelo não me ajudou, que no espelho só havia uma mulher inadequada e feia, que o mundo me negou sua compreensão, que eu guardei pra mim minha clareza, que o telefone não tocou, que eu mesma fui a enfermeira da minha própria gripe, que acharam que eu poderia dar mais do que a própria vida não foi capaz, que as cebolas foram mais ardidas à lâmina do que se esperava, que eu fiquei na minha sala de estar sozinha com o nó na garganta, que o outro não foi justo comigo, que meus cachorros se despediram de mim, que as oportunidades não dariam jamais conta da minha gana e da minha ambição, que nem ao menos uma explicação me concederam, em que eu atingi o ápice do Everest e não havia ninguém para me dar parabéns, que esperavam que eu ainda agradecesse por receber toda a raiva que o mundo gerou e que foi mirada no meu peito; iria correr livre pelas planícies. E então, entregue neste transe retroativo, nesta imersão de natais passados, neste exorcismo de todos os fantasmas, neste plano de supervilão acontecendo, eu faria com que tudo isso seja lavado em lágrimas que, de tanto correr, chegam até o chão, devolvidas ao mundo como que sacrificadas, em agradecimento de tudo que aprendi e me fortaleci.
E aí, seca, exausta, de espírito nu, eu me encontre naquele ponto do qual os gurus falam, em que guardamos todos os ensinamentos da vida dentro de nós ao lado da nossa pureza pueril, da nossa criança interior, do olhar singelo diante de tudo, e tudo igualmente ao alcance da mão. Eu sairia do meu quarto cheia de memórias e absolutamente desprovida de cicatrizes, como um nascimento, só que desta vez, um pouco melhor equipada para a vida. Notem, equipada, jamais armada.
E aí eu comece a não mais chorar indefesa e vergonhsamente ao ver um boxer na rua, ao ouvir "What a wonderful world", ao assistir o final de Billy Elliot, ao estudar "Vissi d´arte", ao falar do que não foi, ao contar a sinopse de La Traviata, ao ler Shakespeare, ao lembrar dos adeuses que dei e dos beijos que me faltaram, aos afagos que não concedi.
Parece fácil, né? Logicamente que não. Torradas secas e triste eu encontre em qualquer lugar, o garrafão de água vem com 20 litros, e todo o material deprê-cultural que me falta pode ser entregue em casa. Mas precisa de algo mais do que isso. Requer coragem, e um senso inexplicável e resiliente; a mesma coisa que faz as águias voarem para os picos mais altos e arrancarem os bicos e as garras, para saírem de lá prontas para viverem ainda mais. Sério, como entender esse instinto destrutivo que nos leva à vida?
Enfim, ainda não encontrei o caminho para isto. Então, enquanto eu não faço isso, se é que vou fazer, eu me vou lidando com isso da mesma maneira que todo mundo, vai se equipadando para fazer com que a represa produza alguma energia no nosso dia a dia.

quarta-feira, março 20, 2013

Sobre morto e catolicismo

Hugo Chavez morreu. Com certeza ficaram sabendo, senão pela notícia, por todo o tipo de piadas que fizeram, ou então pela capa da Veja com uma imagem muito próxima a qual Satã colocaria em sua foto de perfil do Facebook. Bom, se a Veja o aponta como o avatar do Capiroto, tudo indica que foi um grande homem e trouxe alguma contribuição significativa - e sobretudo boa - ao seu tempo. Mas devo dizer que tal destaque da semana não operou sobre minha opinião quanto ao falecido presidente. Não, não quero me fazer de descolada e mega-politizada, mas já há algum tempo que passei a filtrar bem a imagem que se pintava dele. A data não tenho precisa, mas eu lembro quando foi. Chato-pai é uma das maiores fontes que tenho para compor minhas opiniões. Não, não concordo com absolutamente tudo que ele diz, mas se ele tem uma especialidade, uma habilidade incrível, um dom jedi é o de trazer uma outra perspectiva sobre a maior parte das coisas das quais se escuta opiniões enlatadas. Vejam essa: uma vez conversávamos sobre a Revolução Cubana e seus líderes, perguntei se ele a favor do Fidel, mesmo com sua ditadura.
- Sim! Porque foi o início de um regime autônomo, sem a interferência dos EUA, sem o Imperialismo. É lógico que há de se ter problemas e polêmicas, mas isso também precisa acontecer para que se chegue a uma maturidade política. Por que você acha que a Mídia fala tão mal do Chavez?
Quando meu pai diz certas coisas, eu quase consigo ouvir um barulhinho dentro da cabeça, tipo assim. Sim, eu tinha muita pinimba com a turma de líderes latino-americanos, torcia o nariz para cada camisa do Che que via,  mas elas caíram por terra, todas, ali, naquele momento.
Quando Chávez faleceu, eu já sabia que havia mais motivos para luto do que para festa, e o grande e célebre responsório de notícia semanal do Brasil (com ironia, por favor) reforçou minha tese. Lógico que há aqueles que gostam de fazer uma oposição com ares mais ponderados que dizem "ah, mas ele não era nenhum santo". E é basicamente esta afirmação que me poe mais a refletir. Primeiramente, a gente se pergunta se algum político pode ser santo; se é este o rótulo que uma pessoa deve receber, talvez o lugar dela não seja bem à presidência de um país, ou em qualquer cargo de chefia. Curioso mesmo é pensar que há gente que espera encontrar um santo num comando. Até por que, ou bem você comanda ou bem você faz marketing pessoal de boa praça. E então eu começo a me perguntar por quê, como, onde e quando alguém espera encontrar um santo. Santos não existem, santos não fazem nada, ninguém nasce ou vive santo. Aliás, os santos que existem só chegaram a esta condição - ou status - depois de mortos, e muito mortos. E ninguém é mero mortal morto e vira santo. Precisa-se antes virar beato, que é outra coisa que, por si só, leva tempo. Depois de muito rolar de água, alguns poucos conseguem o estrelado santificado, mas só muito depois, depois quando ninguém mais lembra seu rosto direito, se você cutucava o nariz, se tinha paciência com o vizinho, se amarrava bem o saco de lixo pro gari não ter problemas na hora da coleta, se desperdiçava água ou se conversava alto debaixo da janela dos outros tarde da noite. Pessoalmente, eu creio que haja aí um elemento de sorte, existe um certo ponto da vida do qual você não pode avançar, morrer, e não muito tarde, é de vital importância para o processo. E para fundamentar isso, eu posso lançar mão das palavras de um grande homem, "ou você morre herói ou vive o suficiente para virar vilão". Harvey Dent sabia das coisas, ninguém chega à promotoria de uma cidade de Gotham desprovido de sagacidade. E, bom, heróis, santos, convenhamos, a diferença é pouca, se de fato há.
Citando outro sábio, cujo nome a postagem no Facebook não menciona, "se um dia te chamarem de ninguém, fique feliz, ninguém é perfeito"; eu tomo as palavras e levo para outro lado. Se reclamam de você é porque você é alguém.

segunda-feira, março 26, 2012

Sobre meridianos e budismo

Nasci em 1981. Não façam as contas, por favor, só remetam-se àquela época. Ou a gente gostava de Coca ou de Pepsi, ou comia no McDonald's ou no Bob's, ou misturava no leite Nescau ou Toddy. Ainda que o muro tenha caído em 1989, a gente viu por muito tempo o mundo dividido entre vermelhos e brancos para parar de acreditar que o super-vilão não tem sotaque russo. O mundo sempre foi bipartido. Ok, não o mundo, mas a nossa maneira de vê-lo. Nisto se basearam as religiões, ensinando que há sempre o Bem e o Mal, e até mesmo períodos artísticos que exploravam os contrastes entre luz e sombra, piano e forte, curto ou longo.
Mesmo hoje a gente ainda não se livrou disso. Talvez o fato de que não exista mais um vilão mundial — sabemos que muitos daqueles que apontaram para eixos do mal e exércitos do terror foram tão ou mais terríveis do que seus supostos inimigos — faça com que a gente busque dualidades nos microcosmos, como vegetarianos e todos os outros, eu-com-a-minha-religião-pura-e-verdadeira e o resto do mundo ímpio e desviado, gente que ama animais e os outros desalmados que não postam fotos de bichinhos, por aí vai. Engraçado inclusive, pelos meus dispositivos com a maçãzinha, sou catalogada no grupo de Maclover,  coisa que não posso contestar. Só queria que entendessem que na verdade sou uma Microsofthater.
 Voltando, o que é interessante observar é que esta sociedade sci-fi HD pós-moderna não tira da gente a maneira reta —ok, sejamos francos, simplista —de vermos a vida. Lembram outro dia que disse que a gente adora um esteriótipo para poder organizar a vida melhor? Como simplificar pouco é bobagem, a gente quer ter que lidar só com dois. Eu acho mesmo que não importa quantos Burger King, Giraffas, Habib's ou outras opções de fastfood tenhamos, a gente não vai escapar desta dicotomia, e isso porque ela está dentro das nossas cabeças, das nossas almas. Crescemos olhando nossos pais, um sempre fazendo o papel de policial bonzinho e o outro nossas mães nos ensinando a comer direito e mandando a gente pro banho. Ainda que papai e mamãe possam ambos terem sido paz e amor — ou crime e castigo —acho difícil a gente não se contaminar com o fato de que o mundo pode ser dividido entre norte e sul; ou oriental e ocidental. Fica fácil então nos identificarmos e acharmos justo e orgânico que também sejamos bipartidos, razão/emoção. Há óperas inteiras que falam do drama entre fazer aquilo que se deve e aquilo que se quer. Isso dá um papo muito longo. Dá pra falar da força da sociedade nas nossas vidas, nos empurrando para aquilo que não é o que precisamos, e daí venha este embate de forças, este encontro, que se faz de forma truculenta, entre o que há dentro de nós e o que devemos ser para o mundo, que nos deixa sufocados no meio disso tudo, sem saber ao certo o que somos, a que viemos. Baseado nisso, inclusive, eu já tracei algumas máximas na minha vida, a principal delas diz que só uma pessoa com personalidade forte —podendo até tender à neurose, misantropia e boca-suja — é capaz de ter um caráter bom, porque a vida nos impulsiona e nos cobra coisas que nem sempre está em nós fazer. E se não soubermos muito bem quais são nossos valores e aquilo que é certo e errado pra nós mesmos, permitiremos que nossos passos e ações se percam em caminhos que não cabem a nós. E —quem tem sabe —proteger sua personalidade e seus valores não é para os fracos.
Sim, a gente sempre vai estar sujeito a uma certa pressão deste encontro, ir à festinha ou correr para cumprir os prazos num sábado à noite; calar ou ser firme e rigoroso quando alguém que amamos faz algo que não aprovamos, e uma infinidade de outras situações que nunca vou saber cobrir.
Eu? Eu sei lá. Acho que este meu histórico que nunca me deixou grudar muito em nenhuma doutrina, ainda que simpatizasse com o Budismo, ou vai ver que foi a criação do Chato-pai que sempre me mandou me questionar de fato sobre o que eu ia falar, me faz tentar escapar um pouco desses rótulos. O Budismo fala que para abraçarmos as alegrias da vida, precisamos também abraçar suas dores. Bom, pelo menos foi isso que li em algum manualzinho fácil de single-serve portion filosofias. Mas  uma mãe que deu a luz entende bem esta idéia.
Eu não acredito, por exemplo, que haja esta briga dentro de nós. Acredito que o caminho que queremos seguir é um só, o da felicidade. Isto nem sempre significa sermos felizes, mas sim buscarmos o que nos faz bem. Sendo assim, esta é a busca do nosso ser. Podemos deixar que nossos sentimentos guiem esta nau e apontem seus horizontes. Eu sinceramente não acho que haja nada de errado em seguí-los. O que eu acho é que às vezes eles se confundem, viram o horizonte, mas não enxergaram os perigos das águas à nossa frente, ou algo que pareceu de longe ser um lugar paradisíaco não passa da ilha de Lost.  E aí é imperativo que venha a Razão para nos tirar das enrascadas e não deixar que nos choquemos com um iceberg, todo mundo sabe o que acontece daí.  O que quero dizer é que não são coisas separadas, que nos levam em caminhos opostos. Não há briga entre eles. Às vezes uma discussão boba, mas são sempre amigos, fazem parte da mesma equipe, querem na verdade a mesma coisa. Em geral, eu vejo que quando há uma briga séria entre eles, quando cada um quer andar em direções opostas, significa que nossos sentimentos estão sendo imaturos, nossa criança interna está esperneando e ignorando a voz da sabedoria. Ou então nos apoiamos demais nos motivos racionais como uma forma de não sairmos da nossa região de conforto. Meio que aquela diferença entre o "quero" e o "queria".
Outro coisa que penso é que se os grandes heróis já sofreram, podemos tentar evitar ou ao menos mitigar um pouco dos nossos erros. Se olharmos para suas trajetórias, vemos que na grossa maioria, ou bem seus destinos são trágicos ou bem são finais felizes, em que tudo magicamente se resolve. Quem vive mesmo, à vera, sabe que ambas as coisas não existem. Não existe a tragédia como fim. Sim, coisas ruins acontecem, e com raras e exponenciais exceções, é da crise e da dor que encontramos o caminho para o novo e para o belo. Creio de verdade nisso, nunca na minha vida algo de tão ruim aconteceu que não me deixasse em um outro ponto novo, com novas possibilidades, ainda que dificuldades viessem junto. Outra máxima da minha vida é que temos problemas para descobrirmos o quão grande podemos ser. Na outra mão, quem ainda vai cair neste papo de feliz-para-sempre? Alguém acha mesmo que alguma princesa da Disney ou a Julia Roberts em Uma linda mulher jogou todos os seus problemas para longe depois do ponto final desta sentença? A vida é mutável, transmutável, dinâmica. Novas situações requerem novas equações.
O que eu digo é que nem bem ao teatro antigo, nem bem à comédia romântica. Podemos provar tanto da alegria e da tristeza, e é bom entendermos suas dimensões. Quando há discordância entre os nossos capitães internos, é bom analisarmos bem até onde nosso emocional é válido no que pede, assim como também até onde nosso racional não está simplesmente cristalizado ante ao perigo.


domingo, outubro 23, 2011

Sobre drama e vida

Na minha infância,  minha mãe inscreveu a mim e meu irmão num curso bem conhecido de inglês. Odiei, não aprendi quase nada — e não porque eu deveria estar na turma especial, mas sim porque não ensinaram muita coisa mesmo —  não fiz um amigo sequer, além do fato de que eu sempre era a última criança sentada na escada, esperando a caroninha para voltar para casa. O curso nunca teve qualquer chance comigo,  nunca que eu ia gostar. E ao longo da minha adolescência, nada aconteceu para que eu pensasse que curso de inglês era algo legal ou que professores de inglês eram pessoas legais; todos os professores de língua estrangeira que tive no colégio só contribuíram para eu formar meu axioma de que pelo menos 90% deles são uns imbecís. E isso foi tão forte que quando passei para a faculdade de Letras, eu ainda carregava esta aversão, durante uns bons períodos eu cursava a chamada habilitação monolíngüe. Até que um belo dia —mentira, era uma bela noite, este era o horário em que eu me entregava às minhas leituras por gosto e não por estudo —eu havia comprado para o meu namorado na época Julio César, de Shakespeare, mas eu disse que antes de ele receber o livro, eu faria uma minusciosa inspeção para me certificar de que não faltava palavra alguma na edição dele. E ao imperador traído de Roma se seguiram Macbeth, Otelo, Hamlet, e eu ia me encantando cada vez mais pelo dramaturgo inglês. Me fascinei pela sua forma indireta de dizer as coisas, pela dimensão de suas personagens e até pelas inúmeras possibilidades dentro de uma mesma obra. E então começou a me coçar algo na cabeça, me perguntando como seria aquilo tudo em vernáculo. Mais ou menos na mesma época, eu andei lendo algumas traduções de poemas do Blake feitas por um escritor e tradutor  de quem mais tarde eu viria a me tornar aluna. Cheguei a tê-las nos meus murais, e todo dia sorver um pouco de seu lirismo. E foi aí que decidi vencer meus traumas, porque eu queria ler aquelas coisas todas no original, afinal —apesar do meu inglês de auto-didata naquela época não ser nem um pouco ralo  —eu estava buscando algo um pouco além das capacidades que tinha. E foi esse o caminho de eu ter me tornado tradutora. Por causa de dois Williams.
Até hoje guardo meu encantamento por Shakespeare, ainda mais ouvindo algumas óperas em cima de suas tragédias.  Apesar de achar que, se não fosse por ele, tudo seria mais fácil. Ok, eu admito que não foi só culpa dele, mas acho que ele tenha sido o principal responsável. Isso porque lá na década de noventa, aquela que veio antes de 1600, ele inventou de escrever um romance entre dois jovens, de famílias rivais e poderosérrimas, que morrem no final. Se adolescente já é chato por natureza, imagina apaixonados! Eles, que não tinham noção de nada além da ebulição dos próprios hormônios, se enganaram absurdamente e juravam por tudo que há de mais sagrado que estavam amando e terminam morrendo por isso. Não, não me venham dizer que eu que não tenho poesia no coração e sim, eles se amavam. Qualquer um que ama ou já amou sabe que isso é algo que se constrói com o tempo, com o convívio e com a consciência, longe daquele maravilhamento da paixão. Quando amamos alguém, amamos também nos seus e nos nossos defeitos. Aqueles dois pentelhos nunca tiveram a chance de aprender sobre isso. Terminaram com sua vida de uma hora para outra, perdendo, inclusive, toda a chance que tinham de selar a paz em Verona através de um casamento que selasse a aliança entre os manda-chuvas da cidade.
E lendo essa história, as pessoas acham que amor é isso, ao invés das coisas serem tristes, trágicas, elas passam a ser heróicas, e aí todo o sofrer parece que valida o amor que sentem, como se nenhuma alegria pudesse ser completa, legítima ou verdadeira sem dor e drama envolvidos. Há algum tempo, eu tratei um pouco sobre isso aqui.
Esta história toda podia ficar lá, no século XVI, e parar de mover as pessoas nessa roda que as encoraja a alimentar coisas ruins em suas vidas, coisas essas que vão desde sentimentos a relações. Mas aí, quatro séculos depois, um jornalista tem um filho brilhante e talentosíssimo, que resolve escrever samba e até livro, e faz isso como ninguém, e até perseguido político o cara conseguiu ser, de tanto que sofreu nessa vida. E em suas letras ele fala de amores bandidos, traições, mulheres mal amadas, dores de cotovelo e gente tão sem nada que se agarram até no tapete atrás da porta. Gente, sério, adoro, sou fã, mas tenho que admitir que muita fossa é alimentada porque há algo de redentor em viver dentro de uma letra do Chico Buarque. Aí fica difícil escapar dessa filosofia, até porque muitas vezes as pessoas à nossa volta, em quem buscamos outros ângulos e perspectivas para nossos problemas, ouviram os mesmo sambas, leram — não, em sua maioria ouviram falar, no máximo viram o filme com o Leo DiCaprio — a mesma tragédia. Há uma outra possibilidade, talvez ainda mais triste, de pessoas que não suportam a alegria alheia e preferem estimular, de maneira mascarada, que suas pessoas "amigas", ajam contra a própria felicidade. Mas também não vou falar delas. Posso falar, por exemplo, de como é fácil escutar esse tipo de conselho, e eu acho que isso tem a ver também com a mania também que temos de diminuir o que é nosso, de achar que nossas roupas não são assim tão boas, nossos cabelos não são lá tão bonitos, nossas crianças não são lá tão especiais, afinal a grama do vizinho é sempre mais verde. Pode ser, e, bem provavelmente, só é porque as gavetas dele são zoneadas ou suas leituras estão sempre atrasadas.
Por mais que possamos apreciar os clássicos da literatura, isso não quer dizer que tenhamos que viver ditados por seus desfechos. Por mais que entoemos "Trocando em miúdos" ou "Cálice", não nos esqueçamos que ele também escreveu que "apesar de você amanhã há de ser outro dia", e pensando assim, até ele, recentemente, lançou um album em que fala de coisas boas, leves e alegres.

sexta-feira, maio 13, 2011

Sobre amor e reação

Na segunda-feira tenho uma aula agendada. Minha aluna, naquela manhã, me mandou uma mensagem lacônica dizendo que seu tio havia falecido e que não estava em condições de vir, o texto começava com "desculpa por não ir hoje". Essas coisas me cortam o peito. Tento ser rigorosa com meus horários de aula, mas eu entendo que há coisas pelas quais não queremos mesmo passar, por exemplo, acordar de manhã e se descobrir sem voz. A perda de um ente querido, então, nem se fala. Eu ouço desculpas quando na verdade queria dizer a ela "desculpa por fazer você ter que preocupar com isso no dia de hoje".
 Ontem ela veio para a reposição. Com muito tato — e ainda mais receio — perguntei sobre a família e o tio dela. Eu nunca sei como me portar diante de um falecimento. O futuro sr. Kath diz que tenho resposta para tudo. Para isso, não. Eu fico sem palavras mesmo, resignada ao fato de que não há consolo. Perder alguém é sempre dolorido. E ponto final. Sem chances de qualquer saída.
Seu tio foi vítima de um câncer devastador e cruel. No final das contas, só o coração e o cérebro ficaram intactos. Em meio a tanta dor, ele sabia que não tinha mais cura, ele sentia isso na pele. Segunda minha aluna, a tia dele, agora viúva, num ato ponderado de desespero, pediu aos médicos que tentassem de tudo, mesmo tratamentos experimentais, ela se responsabilizaria.
Então eu me lembrei do meu cachorro, meu cachorrão, que já se foi e cuja ausência se perde no tempo. Por um lado parece que já se foi uma vida, um século longe dele; por outro ainda me dói o vazio que ele deixou como se tivesse sido ontem. Foi um linfoma espartano que o levou. Não poderia ter sido diferente, não era qualquer coisa que derrubaria aquela criatura imensa e linda que ele era. Foi descoberto cedo, antes mesmo de seus baço e fígado estarem alterados, e o tratamento não demorou a começar. Mas então com o passar do tempo, ficou claro que aquele seria um adversário resistente. Não tinha como ganharmos.
E mais ou menos por aí eu vejo que poucas criaturas foram mais felizes diante de um câncer do que ele. Jogamos com todas as chances que tínhamos. E durante todo o processo, ele nunca teve aquele alarme na cabeça dele de que estava diante de uma das doenças mais temidas pela humanidade na era moderna. Na cabecinha dele, ele tava mal e ponto. E quando ficou óbvio que a batalha era perdida, coube aos que ficaram se conformarem. Largamos o tratamento sem a menor culpa, porque eu entendia que a medicina não passa de adiamento do inevitável. Quando chegou a hora em que não mais compensava a vida, ele dormiu. Fechou os olhos cercado das pessoas que ele mais amava e que mais amavam ele. Até o último momento se soube amado e nunca sozinho. Eu me lembro que isso foi dois dias depois de eu ter operado o joelho. Eu ainda mancava, mas bati o pé no chão dizendo ao meu pai que não podíamos mais adiar aquela decisão. Ele me lembrava o meu estado pós-operatório, mas eu só consegui pensar na dor que o meu cachorro sentia e que o meu estado não era nada diante daquilo, seria desumano ignorá-lo. E por isso, para mim, não foi traumático levá-lo para que dormisse definitivamente. Foi um ato de amor e compaixão. Mantê-lo vivo seria um ato de abandono.
Não, não quero me colocar como mais iluminada ou esclarecida do que a tia da minha aluna, seria escrotice (não achei termo melhor) da minha parte; não quero culpá-la pelo seu desespero. Por mais que eu amasse — e ainda amo — meu cão, eu sei que ele não era o meu marido, ou o pai dos meus filhos. Mas o que eu tiro desta história toda é que esta dor imensa que se criou na sua ausência só assim se fez porque sua presença era inundadora demais. O que vivi com ele foi mágico. Ele foi o grande motivo pelo qual eu adotei uma outra criaturinha divina, a Canela, que também não aguentou de saudades de foi atrás dele pouco tempo depois. E aí mora o destino de todo mundo que é ama e é feliz, sentir falta.
Triste mesmo aquele que não sente saudades.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Sobre liçoes e adversários

Lembro uma vez, durante uma aula de canto. Entre um vocalize e outro, nao consegui mais me segurar e chorei. Chorei contido, brigando comigo mesma para nao fazer aquilo, mas fluiu. Meu professor à época, um senhor muito distinto de quase 80 anos, me perguntou se a sua princesinha estava bem.
—Estou, desculpe-me. Nao vai acontecer de novo. Podemos seguir.— — ele respondeu, chileno. Mas ficou sentado ao piano, com as maos no colo, olhar sereno e impassível, olhando para o tampo de madeira.
Eu fiquei parada, em silêncio esperando ele retornar. A espera me derrotou um momento:
—Podemos seguir.
Ele continuou em silêncio por mais um tempinho, até que proferiu:
—Sabe, mi princessa, quando choramos porque a música nos emociona é muito bom, nos mostra que temos emoçoes e que estamos vivos. Pero, quando choramos por amor, quando o amor que sentimos é usado para nos fazer sofrer, quer dizer que estamos morrendo.
Depois de dizer isso calmamente, ele voltou os dedos às teclas, prosseguindo o exercício, fingindo que ignorava a grande liçao que havia me dado, que foi recebida quase como um soco no estômago.
Já há alguns anos que isso aconteceu. Mas me lembro disso agora nao porque estou num ambiente onde ouço espanhol todos os dias, mas sim porque mais cedo fui pedir uma coisa ali no saguao do hostel onde estou e vi uma atendente que é sempre muito delicada comigo — mas na verdade, assim sao todos — atrás do balcao, com ar ofegante. Perguntei se estava tudo bem, e ela se limitou a acenar negativa e nervosamente com a cabeça. Os olhos vidrados numa tela de computador, teclando freneticamente. Nao demorou muito ela levantou dali, tentou se controlar, bebeu uma água, foi amparada pelas suas colegas. Nao falou muita coisa sobre o que houve, mas eu sei, já vi essa novela. Levantou dali, cruzou o salao com um cigarro apagado numa mao, o celular na outra e um misto de revolta e tristeza. Vi muito essa novela. Sei que nao se trata da mae doente, do cachorro mal, ou de uma resposta de uma oportunidade que ela esperava. Vi tanto essa novela que hoje deixo passar qualquer reprise.
O que me chama a atençao nao seria uma suposta falta de decoro profissional dela. O que acontece é que por muito tempo, e digo muito tempo mesmo, isso foi completamente real e tangível para mim. Por mais que eu nunca tenha achado que isso era bom, estava dentro dos meus parâmetros de normalidade. E entao as coisas mudaram, podemos dizer que de uns 7 meses para cá. Começou que eu passei a nao aceitar mais esse tipo de situaçao, e nao aceitar significa nao alimentá-las. Dizer que isto mora no meu encontro com uma pessoa que vivencie as coisas de outra forma e que eu soube responder a isso de forma positiva  pode ser controverso, porque prefiro pensar que eu, dentro do meu momento de saber o que me faz viver e o que me mata, tive a oportunidade de encontrar com esta pessoa tao importante e, daí, um buscar as respostas nos outros do que precisavam de uma relaçao. Impressionate que em 5 meses brigas de namorados, desconfianças, gritarias, implicâncias, rivalidades e falta de lealdade, de respeito, de carinho e de zêlo se tornaram algo de outro mundo dentro da minha cabeça. Como dizia minha avó, se acostumar com o que é bom é fácil. O que me impressiona sao todas as pessoas que, como essa moça, como eu há alguns meses atrás —e fui assim por longos anos na minha vida —, vivem tanto tempo dentro dessas relaçoes nocivas, corrosivas, achando as mais variadas razoes para justificá-las.
Se me fosse dada mais intimidade com a moça da recepçao — ou se me faltasse um pouco mais de tato — eu iria até ela para dizer que está errado, aquilo que ela está passando nao é para ser assim. Nao importa terminar ou continuar, importa ter respeito, nunca tratar o outro como um inimigo ou fazer com que ele se sinta exposto e desamparado, sobretudo dentro da sua própria intimidade. Quando duas pessoas se unem, nada além das suas próprias vontades atam seus laços. E exatamente por isso eles precisam ser bons, leves, no sentido gracioso da palavra. Mas eu sei que o problema nao é a falta de intimidade ou excesso de qualquer outra coisa que me impedem de ir lá falar com ela. Eu já estive nesse lugar, sei como as coisas se firmam fundo na nossa cabeça, sei que ela pode até ouvir minhas palavras numa boa, mas nada vai mudar, acreditamos que o sofrimento que sentimos valida o amor que sentimos. Isso vale para tatuagens, partos, dentiçao e aqueles primeiros dias da musculaçao; para relacionamentos, nao.
Eu só fui capaz de entender de verdade o que meu para sempre amado professor quis dizer quando fui capaz de vivenciar o outro lado do espelho, que era real nao pagar um preço alto pelo amor que sentimos; só hoje eu entendo que briguei contra mim mesma naquela época, nao para nao chorar, e sim para me manter ali, de pé, premitindo que pudessem fazer aqui comigo. E dessa briga nao saem vencedores.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Sobre beijos e idéias

Esta manhã encontrei um beija-flor morto sob a minha janela. Não sei dizer quando foi, passei fora pelas festas, mas não parece ser de ontem. Assim que vi, não gostei. O fato de ter uma carcaça dentro da minha casa me incomoda menos do que o fato dela ser de um beija-flor. Tenho essa coisa por pássaros, sabem? Gosto de animais em geral, fato público, mas tenho pelas aves uma ligação especial. Criei canários quando era bem criança, e, quando perdi o primeiro, só consegui superar na adolescência. Mas acredito também que minha admiração por essas criaturas seja alimentada, em boa parte, por uma certa dose de inveja; elas fazem duas das coisas que acho mais lindas e mágicas: cantam e voam.
Pois é, tem um pássaro morto. E ainda por cima é um beija-flor. Não importa onde estejamos, sempre que passa um deles a gente pára para admirar, eles passam rápidos, fugazes e etéreos, bebendo néctar, como a mitologia gosta de contar dos deuses olímpicos. E ainda ficamos admirando-os, mesmo depois, quando não estão mais lá.
Mas vocês já olharam bem para um desses de perto? Há alguns anos, quando eu e meu pai acordamos pela manhã, havia dois na cozinha. Eles haviam entrado e não conseguiam sair. Quando abri a porta, um se apressou e passou por mim, dando um rasante na minha cabeça, saindo pela janela aberta, enquanto o outro permanecia desesperado voando contra o vidro. Com o peito cheio de dó, eu fui lá para salvá-lo, muita dó e jeito. Porque um pássaro você não agarra como oportunidade, pelos cabelos; você tem que fazer isso com muito cuidado, senão vai quebrar suas asas. Então fechei-o entre as minhas duas mãos em concha, e ele ainda se debateu por um tempo, mas não muito. E enquanto me dirigia para uma abertura onde pudesse soltá-lo, eu me encontrei com aqueles pequenos olhos negros, e foi aí cristalizei por uns três segundos. Aquele bicho era tão perfeito que não parecia real, era como capturar uma idéia. Aquela penugem dele tão fina e delicada, com aquelas cores encantadas que mudam conforme a luz e o movimento, aquele corpo tão minúsculo que minha mão engoliria se quisesse — mas não é capaz — , e pairam no ar, não voam; é puro, cristalino; não, não se parece com nada. E antes mesmo que eu abrisse minhas mãos para soltá-lo, ele se libertou e encontrou seu caminho sozinho. Mas eu fiquei com a sensação dele comigo, fiquei lá, naturalmente, admirando-o mesmo que ele não estivesse mais lá. O resto do dia foi sustenido.
Então quando vi aquele outro, com um destino mais triste, sob a minha janela, fiquei me perguntando quanto tempo ele não se debateu contra o vidro até que suas forças o deixassem. E belas idéias não têm que ter este fim. A primeira vez que tentei recolhê-lo, não consegui. Tive que parar, fiquei sentada na cama acolhida com braços e ouvidos doces, emocionada. Nas minhas próprias palavras, acho que ainda não cresci mesmo. Mas entre uma linha e outra desta postagem, peguei aquele corpinho sem vida e enterrei no jardim, onde era o lugar dele.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Sobre bombons e família

A vida é engraçada, surpreendente, uma caixa de bombons, como dizia Forest Gump. Chato-pai é, por si só, uma pessoa caixa-de-bombons, e não pelo fato de não ter barriga ou até hoje jogar tênis com muita disposição. Vejam vocês, aos 60 anos ele ficou noivo. De aliança trocada e tudo! Ai, eu fiquei toda boba! Não só por achar que se trata de uma decisão super acertada dele, mas também por
achar tudibom. No final das contas -- e apesar de tudo -- sou mesmo romântica, mas láá no fundo.
Mas então a vida, essa danadinha, acha pouco um noivo sexagenário -- e para quem conhece o meu pai, sabe que ele não combina nem um pouco com essa palavra -- e resolveu fazer com que pai e filha ficassem noivos ao mesmo tempo. Pois é! Tenho certeza de que q maior parte dos meus 6 leitores pensou que isto nunca fosse acontecer, mas Fluminense foi campeão, Tiririca é alfabetizado, Dziuma foi eleita e Geisy Arruda na capa da Sexy, por que não mais uma surpresa? E depois de só três meses que aquela onda de boas coisas ter começado na minha vida. E pensar em tudo que vem acontecendo desde então, a onda ta mais para uma tsunami.

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terça-feira, setembro 28, 2010

Sobre passos e o nada

Chaplin tinha aquela teoria dele maravilhosa — e assertadíssima —  sobre como deveria ser o fluxo da vida. Infelizmente, não passa de uma opinião. Seria bom se o Grande Diretor pudesse ter, ao menos, alguma participação na criação das coisas. Seria um mundo mais cheio de poesia e beleza. Ok, divaguei, não vim aqui falar dele. Mas é que andei pensando sobre a vida das roupas. Parece que não ando tendo muitos outros assuntos sobre os quais pensar, mas não é bem por aí. Só que é bom ter cartas na manga para fugir da política e do preço da gasolina.
Antes que eu divague mais, eu me lembro daquilo que o Jerry Seinfeld falava que a coisa mais divertida que podia acontecer a uma vestimenta era o laundry day. Elas entravam todas num lugar escuro, agitado, com um barulho alto em suas "cabeças", e ficavam lá dançando; coisa que custa caro para nós e ainda envolve muito trabalho e salto agulha. Fora irem para lavanderia, a vida delas se resume a serem passadas a ferro quente e ficarem na gaveta esperando serem escolhidas. É muito martírio! Não à toa, ainda segundo o lirista sobre o Nada, as meias tentavam fugir se escondendo dentro da máquina de secar, rastejando como cobras para uma vida de liberdade sem sapatos ou amaciantes.
Mas eu não penso bem por aí. Acho que a vida delas é um tanto quanto parecida com a nossa, com esperas similares e um eventual divertimento. Podemos até mesmo pensar no ferro de passar como uma metáfora interessante. E no decorrer da vida, de tanto uso e batalhas, o viço vai se perdendo e as cores desbotando. No final das contas, a validação máxima que uma roupa recebe é ser acolhida e resguardada no ambiente pessoal de cada um, se tornando aquele traje para os momentos íntimos diante da TV com os pés para cima. De tanto vivenciarem o dia-a-dia, elas vão se tornando parte de nós e passam a compor uma nudez velada.
Por outro lado, isso nunca acontece com o sapatos. Não com eles, pois estão no perfeito oposto. Parece que de tanto cobrirem distâncias, caminharem e terem seus passos perdidos em esquinas, avenidas e estradas, eles se perdem de nós, viram estranhos e não mais nos pertencem.

domingo, janeiro 10, 2010

Sobre lógica e o ladrão

Como alguns podem imaginar, já conheci uma boa parcela de gente maluca, psicopata, daquelas que te batem e ainda reclamam de você não agradecer. Ironia da vida, também, foi que este blog recebeu uma parcela dessas pessoas, que até se acharam no direito de me atacar através de comentários. Não bastasse serem doentes, ainda são covardes. Mas não e bem sobre isso que vim aqui falar. Eu lembro numa época em que minha vida tava em baixa, eu, extremamente infeliz com tantas coisas e tantos padrões ruins na minha vida, desabafo com uma grande amiga, e era bom desabafar com ela, tinha uma filha da minha idade, era divorciada e psicóloga, então ela sempre tinha uma outra visão das coisas, tinha idéias claras e estava sempre disposta a ajudar. De certa forma, nossa amizade era um problema, porque eu queria que alguém como ela fosse minha analista, mas bons amigos são sempre dádivas. Ela, por exemplo, me deu um dos presentes que mais guardo dentro de mim:
— Não confunda a doença dos outros com a sua.
Ouvir isso foi quase como morrer, minha vida passou diante dos meus olhos. Então eu percebi que se tinha alguma culpa naquilo que as pessoas fizeram contra mim, é porque eu não escolhi de forma criteriosa quem entra na minha e daí também não dei a essas pessoas o espaço que elas mereciam, dei além. E só, minha jurisdição não cobre a vontade e as ações do outro. Esse papo de que "a ocasião faz o ladrão" é uma forma de não responsabilizar o outro por falta de caráter e por índole desonesta. Penso que o ladrão que vê em tudo uma ocasião, e não o contrário, o que me parece natural, afinal, vemos aquilo que realmente é relevante e significativo para os nossos olhos. E uma das maiores habilidades da lógica é encontrar justificativa para aquilo que queremos fazer.

sábado, julho 25, 2009

Sobre fadas e laboratórios

Quando eu era pequena, adorava qualquer passeio até à banca de jornal. Lá, habitavam algumas das coisas mais legais do mundo, álbuns de figurinhas, gibis e até mesmo uns chicletes e pirulitos. Eu imagino o que não seja hoje para uma criança, já que hoje encontramos DVDs e um números cada vez maior de personagens sendo vendidos ao lado do jornal.
Uma das coisas que eu mais gostava, eram aqueles livros ilustrados, capazes de entreter uma criança por horas, com páginas para colorir, pontos para ligar e outras de lápis mágico, nas quais tinha que riscar a folha inteira para ver que figura ia surgir. Esses eram os meus favoritos, davam barato, mesmo que durassem pouco.
Com o passar do tempo a gente cresce, descobre que o desejo estava lá desde sempre, se desencanta desses personagens coloridos, às vezes até se atrai por coisas mais maduras, como palavras-cruzadas.
Mas aí eu reparo que sempre que por mais remédios que eu tenha que tomar, eu não me canso de raspar a caixa com um objeto metálico para ver o selo de garantia do laboratório fabricante. Devo ressaltar que faço isso com capricho, não deixo nem uma pontinha oculta.
E então reparo que a gente cresce, mas nem tanto assim. E que também ainda há mercado para livros ilustrados, só podiam atualizar os personagens, nem precisam ser tão coloridos. Tanto o V de Vigança quanto o Don Corleone variavam muito pouco do preto e branco. De certa forma, já falei sobre isso antes.

sexta-feira, abril 10, 2009

Sobre cursor e tabagismo

Eu encaro esse cursor mal-criado esperando para correr e, apesar do silêncio, não me sinto mais calma. Apesar de perfeitamente assentada e habituada à sua inércia, minha passividade não é sinal de consentimento.
Eu queria escrever, sabem?, assim, escrever, no sentido desportista da palavra, tomar carona na fumaça que se ergue da xícara de chá e dar vazão àlguma voz da metrópole, brotar com uma pessoa sem rosto, conceder-lhe uma personalidade banal com um traço de curiosidade e contar como havia sido um de seus dias. Aliás, há quanto tempo o diretorvoltou do mercado e não se soube mais nada dele?! Mas parece que o músculo das mãos anda fraco. E isso me incomoda tanto que confesso até que quando sinto falta, mas não impulso, de escrever, tenho vontade de acender um cigarro, eu, a anti-tabagista. Creio que fumaças de tabaco elevam-se mais delgadas, por isso ou não, vão mais longe; as do chá, por sua vez, depois que esfriam, se encorporam à multidão suspensa que é a atmosfera, então a viagem é sempre curta. E incensos, bom, são coisas de hippies ou dessas pessoas que têm vários cristais em casa, não de escritores, ainda que escrevam apenas para bloguizinhos.
É, as coisas andam complicadas, tenho passado muito tempo longe do PC, e isso ocorre porque na verdade ando longe de casa. Ainda houve a recente perda de um colega colunista, então complica mais. Mas eu carrego meu fiel escudeiro sempre comigo, meu caderninho-amigo, sempre receptivo ao que eu quiser dizer, sem nenhuma pergunta em troca. Este foi testemunha do (por vezes árduo) surgimento de grande parte das balelas e baboseiras que enchem esse Casa. É um mau sinal quando até ele anda me olhando torto.
Mas segue, a vida segue, como a doença, a chuva, o rio, a boiada e o tempo. Seguindo, ainda que perdido, a gente se encontra.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Sobre humanos

Na minha vida, aprendi que a dor que realmente dói é aquela que suportamos sozinhos, no claustro de um quarto, numa viagem curta de carro com as janelas fechadas, já sentados na poltrona do avião rumo ao destino, diante de um espelho embaçado. As outras, que até nos levam às lágrimas e nos fazem gemer, não são dores, são incômodos, acidentes, mas enquanto houver alguém que nos acolha, que nos acalme e nos afague, e que nos lembre que sempre vale a pena lutar, persistir e vencer, porque estas mesmas pessoas estão lá para serem felizes com a nossa vitória, poucas coisas realmente graves podem nos derrubar. E é uma pena como demoramos muito tempo para entender isso.

domingo, fevereiro 03, 2008

Sobre papel e energia

Antes mesmo da papelada, do arrasta-arrasta, ou da minha imensa perda, essa idéia já havia me assaltado. Ele passou à frente, bateu as teclas dele sobre o assunto. Mas tanto tempo ruminando, a gente termina ignorando o risco de se tornar repetitivo.
Eu olho o meu baú de recordações (sempre o chamei assim, depois de anos ocupando várias formas diferentes, ele permanece como uma gaveta), com cartas, cartões, papéis de bala, fitas, bilhetinho de aula, desenhos bobos, fotos, e penso que hoje o fluxo de coisas que ali entram é tão menor do que há 10 anos. Eu me pergunto o que será das gerações futuras que as recordações se resumirão a bytes, que podem ser formatados, e apagados com a mesma facilidade de se chamar um elevador. ( No meu baú, a regra sempre foi o que entra não sai.) O volume de coisas, bilhetinhos, lembretes que as pessoas escrevem hoje é infinitamente maior do que no passado, isso lá é, mas via scrap, por regra, o que é lido é apagado; seus e-mails ficam armazenados em algum lugar que sempre é passível de sofrer um erro fatal (naturalmente que este adjetivo foi despido de seu verdadeiro sentido) e ser perdido.
Quem somos nós sem as lembraças e recordações daquilo que vivemos?
Ainda que as fotos do seu casamento terminem em um CD, pen drive ou qualquer mídia-ultra-micro-moderna, em um futuro (próximo), você não terá mais o driver para lê-la.
Mas eu penso que o problema passe por uma diferença ainda mais sutil. Os álbuns ocupam a estante, há um ponto em nossa casa destinados a ele; cedo ou tarde, na hora de se tirar o pó, cruzaremos; quando precisamos, eles estão ao alcance de nossas mãos. E isso um CD, um chip, nunca vai te dar. O que se passou é mais uma lâmina, como outra qualquer, que necessita de um aparato imenso, com a versão certa e atualizada para poder ser revisitada.
Talvez o que mais me assuste com o passar do tempo e da modernização é que precisamos cada vez mais de energia elétrica para saber quem somos nós e nossos amigos, como podemos achá-los, como vivemos, qual é a nossa cidade e o que ocorre dentro dela. Preciso até mesmo para poder ter papel para escrever.

sábado, outubro 06, 2007

Sobre a prostituta e o elástico


Em Depois da Chuva, roteiro de Akira Kurosawa dirigido por Takashi Koizumi, um ronin, Mizawa, vaga pelo Japão com sua esposa, Tayo. Com a cheia do rio, o casal é obrigado a ficar em uma pequena hospedagem. Em meio aos outros viajantes, todos pobres, havia uma prostituta, sempre alvo das chacotas e sempre muito arredia. Então Misawa organiza uma festa de mesa farta para todos, para acalmar os ânimos sensíveis. Quando a chuva passa, para o pesar geral, o querido casal parte.
Então vem a prostituta, aquela que não falava com ninguém, e fala à Tayo:
— Tome. É tabaco, passe no pé para não ferir durante a caminhada.
— Ah, obrigada. — Ela sorri.
— Desculpe, eu realmente queria ter alguma coisa para dar.
Esta é uma das cenas que mais me emociona em todo o cinema (sim, eu sei, já chorei até em propaganda de cartão de crédito), mas acho comovente demais. Vejo aquela mulher, querendo dar algo a eles que fosse do mesmo tamanho do que eles deram a ela. Mas o que ela não percebeu é que não foi a comida ou a bebida o presente, foi o convite para que comesse à sua mesa. E ela, em seu singelo ato, não notou que o que ela deu não foi um torrão de tabaco que, aliás, era muito útil; foi a preocupação dela, a comoção em seus olhos na despedida, a intenção de que houvesse algo dela que eles carregassem consigo.
E assim é sempre. Ganhei um pirulito na sexta-feira, mas ganhei junto um cartão com palavras que sintetizam uma amizade de mais de 10 anos, que suportou muita coisa. Ganhei uma balinha, um coraçãozinho, um clips, um elástico e um fio dourado que, por si só, são símbolos para me lembrar de valores e posturas; e ainda por cima, foram entregues por mãos dulcíssimas. Ganhei presentes lindos e sempre desejados, mas que vêm pontuar pequenas e imensas dádivas que ganho todos os dias, sem as quais eu não sei viver, confesso. Ganhei abraços de amigos amados e até ganhei um outro post, assim sem esperar, depois que tudo já tinha passado.
Já disse aqui uma vez, ratifico: o que é mais valioso não tem preço algum.

sábado, agosto 25, 2007

Sobre crenças e adagas

Abandono é uma coisa pela qual passamos diversos momentos em nossa vida. Eu mesma já o conheci de diversas formas. Às vezes, um nos prepara para o outro. Mas eu nunca fui muito partidária dessa idéia, para mim é uma ferida que não cicatriza. E o abandono seguinte é como adaga que atinge teu mesmo ferimento. E se a ferida já está aberta, funda, mais fundo ainda será o golpe.
Mas hoje eu me pergunto se toda essa minha teoria ainda vale. Hoje me pergunto se a ferida, de tão aberta, já não tem mais fundo; me pergunto se não seria como aqueles buracos em que jogamos uma pedra e não se ouve o eco de quando ela atinge o chão.

sexta-feira, março 30, 2007

Sobre guarda-chuvas e doçuras

Fico aqui pensando, quase uma travessura por ser tão tarde. Pareceu-me entender por um minuto o porquê de certas coisas. Como, por exemplo, porque o mundo é assim tão do jeito que ele é; porque esquecemos que certas coisas preciosíssimas custam tão pouco, quase nada. (E já falei disso aqui antes...)
Depois do último gole de xarope do dia, me perguntei se nós, adultos (tá, pode pôr um pouquinho de ironia nessa), não preferiríamos que o médico nos receitasse xarope infantil docinho, que tomamos a dose e ainda lambemos o copinho. E acho que é isso que nos endurece, não ter mais gente disposta a enrolar brigadeiros e pô-los em forminhas para o nosso aniversário; não relembrar as piadas bobas que sempre arrancam risadas; cumprimentos gélidos de aperto de mão e batidinhas nas costas. Será que não queremos (e necessitamos) daqueles acabamentos arredondados nas ponteiras do guarda-chuvas, como os das crianças têm, para que não furem os olhos? E em que idade ter uma escova de dentes com um sorriso sempre aberto pra mim passou a ser errado? Quem quer argumentos e razão quando pode ter uma boa tigela de sorvete com calda e castanhas para se acalmar?
Me pergunto, algum dia eu disse que não queria mais que entrassem no meu quarto à noite para ver se estou com frio, ou que não cantassem mais para eu dormir?

segunda-feira, março 12, 2007

Sobre nós e nada mais

Não importa o quanto podemos ser belos, inteligentes, admiráveis, bondosos, envolventes, dedicados, ricos, famosos, semi-divinos; nada disso não importa, nada disso consegue nos assegurar naquilo que mais queremos: sermos verdadeiramente amados. Em muitas vezes, aquilo que deveria nos servir como fogo aliado nos expõe ainda mais. Talvez o medo, que beira a neurastenia, de nunca conseguirmos aquilo que buscamos não more na impossibilidade do amor (não que esta possa ser descartada), mas sim na névoa em que buscamos nosso alvo; afinal, o que é, verdadeiramente, o amor? E ainda que um dia possamos provar da fruta e ter-lhe o sumo roçando-nos a pele, que semente é essa capaz de gerá-lo?
É sábio esperar por sentimentos que ascendem ao divino quando aqueles que os geram e alimentam não passam de... humanos?
O que queremos, afinal, sermos amados apesar de nossa beleza ou dedicação? E este seria o ideal, sermos podados, despidos daquilo que também somos, para caber no coração do outro?
Então a pergunta e a dúvida não é sobre amor, amores ou desejos; é sobre o que queremos que seja o objeto de tudo isso: nós, puros, sem máscaras ou chantilly.
Então que somos nós, verdadeiramente?