domingo, setembro 14, 2008

Dimensão

Nasci, de um parto sem choro. E, ao contrário dos recém-nascidos, eu e meu irmão nunca coubemos em uma só mão. Mesmo com o tamanho todo ele nasceu mirrado, mas eu nasci gorda; estreei com 4kg e muitas dobras no pescoço.
Sem muita demora, minha mãe nos jogou na água; nadávamos como peixes. E desde cedo eu alargava os ombros. E como se o tamanho todo que tínhamos fosse pouco, nós crescíamos 1cm por mês, o dobro do considerado normal.
E assim sempre foi. Não demorou para que passasse a minha mãe em altura e emprestasse suas roupas e seus sapatos, o que ela detestava, porque, além de grandes, meus pés são largos.
Estudando música, antes de diagnosticarem meu timbre, sabiam que era uma vocione. As oitavas do piano sempre cobri com folga. Minha mãe dizia que eu tinha mãos de parteira, com os dedos longos e finos. Era uma idéia bonita, eu penso.
Naturalmente que isso nunca passou despercebido. Sempre fizeram piadas de que não era bom me contrariar; me enfrentar seria imprudente. Um tapa meu seria um tapa e meio.
Mas depois de todo esse tempo, nunca achei um jeito de falar para essas pessoas todas o que os meus olhos grandes vêem e expressam: não importa quão gigantes nós sejamos, diante do mundo somos sempre miúdos; tão ínfimos diante da má vontade das pessoas, da vontade má dos outros, da vastidão dos caminhos e da vida. Uma oitava inteira é nada diante de toda a extensão do que nos cerca. Quantos são os harmônicos para se fazer ouvir quando não se escuta?

3 comentários:

xistosa - (josé torres) disse...

Já vi, (na Internet), a frequência vocal partir copos.
Agora não será, propriamente ver, mas ouvir.
Então faz favor de gravar, com ondas mais ténues ...

Justo disse...

Isto é de tua autoria menina?

Justo disse...

Moça se este texto é teu , tu tens talento de sobra...