Estava entregue ao seu passatempo de sexta-feira à tarde, olhando as roupas no varal, se perguntando se ainda estavam cheirando àquele amaciante, conferia a louça do café-da-manhã ainda na pia esperando pelo detergente, o pequeno maltês dormindo sobre o sofá, a cama ainda desfeita, preservando as dobras que ela havia feito no lençol, a toalha molhada esquecida na poltrona, a nova cafeteria expresso que havia chegado essa semana que caia como uma luva nos ares daquela cozinha com seu design italiano e a sua caixa de papelão que ainda não tinha ido para o lixo, a porta do guarda-roupa que havia ficado aberta, os papéis e contas sobre a mesa.
— Essa sua falta de tempo tá me matando.
E então foi surpreendido, o cachorro saltou da almofada e correu à porta que abria. Ela apareceu, esbaforida, com algumas sacolas, falando ao celular. Não fez a festa habitual ao pequeno, lançou o que tinha nas mãos na primeira cadeira e correu para o quarto.
E o coração do voyeur acelerou, fazendo com que ele respirasse ruidosamente e se preocupasse em ser ouvido. Era a primeira vez que a captava em suas lentes ainda com a luz do dia, temeu não bastar estar com as lâmpadas da sala apagadas, mas isso não o fez sair dali, preferiu correr o risco.
E ela estava alheia, entrou no banheiro como sempre faz, já descalça e terminando de desabotoar a blusa que começou a abrir no corredor.
Impotente, tinha que se contentar em assistir o espelho do banheiro embaçar sem nem ao menos saber onde estava o cachorro.
E cruzou a porta uma figura molhada, desnuda, deixando pingar no chão a água que ainda estava nos cabelos, correndo em direção ao telefone.
E o pobre telespectador não teve dúvidas, cobriu a lente com uma das mãos enquanto se afastou daquela visão, chocado e enrubecido.
Não, não estava ali para isso; ela, tão especial, não era para ser tratada como essas outras, quaisquer, que só têm a nudez para oferecer de bom, que não passam de páginas de revista.
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sábado, maio 16, 2009
domingo, dezembro 28, 2008
Janela indiscreta - parte V
Passou a porta automática e pegou uma cestinha, não estava lá para comprar muita coisa. Olhou de fora os corredores tentando decidir se primeiro pegaria amendoim, queijo ou batatas fritas.
Impelido por aquele efeito que mercados causam, começou a andar um pouco a esmo, esperando que as prateleiras o inspirassem em alguma aquisição.
Passando pelos freezers, seguiu seu ritual de compras e equipou-se com 4 tipos de queijo e 2 bandejas de salame fatiado. Seguiu, e ia passar reto pelas frutas até que seus olhos pousaram num cacho de uvas rosadas e suadas, que o fez parar. Esticou a mão sobre elas, alisou a casca acetinada enquanto respirava fundo. Ergueu então o rosto para prosseguir, e quase sua cesta foi ao chão.
Ali, a menos de 5 passos, de pé entre as laranjas e as mangas, empurrando um carrinho de compras, lá estava o seu foco, o ponto para o qual seus olhos já estavam habituados a olhar. E na continuidade de seu hábito, saboreou o que era vê-la sem lentes, sem rua e vidro entre eles, sob a luz acesa, com os cabelos já desfiados pela hora avançada do dia e a pele sem frescor pelo ritmo da cidade. Apenas saiu do seu torpor quando ela se virou em sua direção, empurrando seu carrinho, e sem notar muito o que passava a sua volta, pegou dois cachos, um dos quais ele havia acariciado, e continuou seguindo.
Num impulso, ele pegou outro cacho qualquer e saiu atrás dela, mantendo-se alguns passos atrás e se esforçando para não ser traído pela intempérie que se passava dentro do peito.
Entraram na seção de artigos de higiene, ela levou algum tempo para decidir qual a marca do xampu e quais as fragrâncias do sabonete, mas ele não, confiou plenamente no gosto dela e jogou idênticos em sua cesta. Imitou-lhe também o amaciante de roupas, a comida semi-pronta, os guardanapos de papel decorados e até mesmo as suas batatas-fritas crocantes.
Ela se dirigiu para o caixa, e quase foi acompanhada, mas com o mercado vazio seria no mínimo questionável o por que de esperar precisamente atrás dela.
Pagou suas compras e correu para casa, para saber como ela as guardava.
Impelido por aquele efeito que mercados causam, começou a andar um pouco a esmo, esperando que as prateleiras o inspirassem em alguma aquisição.
Passando pelos freezers, seguiu seu ritual de compras e equipou-se com 4 tipos de queijo e 2 bandejas de salame fatiado. Seguiu, e ia passar reto pelas frutas até que seus olhos pousaram num cacho de uvas rosadas e suadas, que o fez parar. Esticou a mão sobre elas, alisou a casca acetinada enquanto respirava fundo. Ergueu então o rosto para prosseguir, e quase sua cesta foi ao chão.
Ali, a menos de 5 passos, de pé entre as laranjas e as mangas, empurrando um carrinho de compras, lá estava o seu foco, o ponto para o qual seus olhos já estavam habituados a olhar. E na continuidade de seu hábito, saboreou o que era vê-la sem lentes, sem rua e vidro entre eles, sob a luz acesa, com os cabelos já desfiados pela hora avançada do dia e a pele sem frescor pelo ritmo da cidade. Apenas saiu do seu torpor quando ela se virou em sua direção, empurrando seu carrinho, e sem notar muito o que passava a sua volta, pegou dois cachos, um dos quais ele havia acariciado, e continuou seguindo.
Num impulso, ele pegou outro cacho qualquer e saiu atrás dela, mantendo-se alguns passos atrás e se esforçando para não ser traído pela intempérie que se passava dentro do peito.
Entraram na seção de artigos de higiene, ela levou algum tempo para decidir qual a marca do xampu e quais as fragrâncias do sabonete, mas ele não, confiou plenamente no gosto dela e jogou idênticos em sua cesta. Imitou-lhe também o amaciante de roupas, a comida semi-pronta, os guardanapos de papel decorados e até mesmo as suas batatas-fritas crocantes.
Ela se dirigiu para o caixa, e quase foi acompanhada, mas com o mercado vazio seria no mínimo questionável o por que de esperar precisamente atrás dela.
Pagou suas compras e correu para casa, para saber como ela as guardava.
domingo, dezembro 21, 2008
Janela indiscreta - parte IV
Uma janela se acendeu, e logo em seguida uma figura cruzou uma sala de estar lançando descuidadamente sacolas em cima do sofá; sumiu e voltou a aparecer na cozinha, onde abriu a geladeira, tirando uma garrafa de água gelada para beber aos fartos goles encostada na pia.
E na margem oposta, alguém se empertigou numa poltrona pretensiosa e roçou o dedo sobre o play:
Tornou a quantidade correta de vinho no cálice para então girá-lo no ar, mas fez isso no automático, hábito velho, sem nem ao menos conferir sua cor contra a parca luz que vinha da rua; seus olhos estavam longe dali.
Ainda aparada pela pia, fez festinha para o pequeno maltês bem tratado que veio ao seu encontro. Enquanto desabotoava a blusa, cruzou de novo a sala, desta vez em direção o quarto, e entrou direto no banheiro. Lá demorou por algum tempo, e o espião considerou aquilo uma tortura gentil, que, ao seu final, teve como recompensa a visão de outra daquelas boxer, dessa vez preta, como uma tarja de censura, e uma blusa de alcinha. Agradeceu à potência do seu zoom por ser capaz de fazer chegar a ele, do outro lado da rua, todo o frescor que aquele banho havia concedido.
Retornou à cozinha, e voltou saltitando ao quarto com as sacolas na mão esquerda, uma garrafinha de ice na mão direita e o animalzinho aos seus pés compartilhando da sua alegria.
Jogou-as sobre a cama e foi abrindo as caixas, estendendo seus novos pertences sobre o lençol.
— Que bom que foi um dia de boas compras para nós dois — ela teria ouvido não fosse a distancia.
Então, sorvendo aos golinhos a sua bebida, entre um giro e outro frente ao espelho com as mãos mantendo o vestido junto ao seu corpo, olhava para o seu mascote e fazia com que abanasse o rabinho.
— Quadrúpede de sorte.
Desfilou pelo quarto no alto dos sapatos novos, parando de vez em quando para ver como ficavam no pé, fazendo poses, sorrindo com seu reflexo.
— Vestido para quê, está linda assim!
Extraiu toda a potência das suas lentes, conferiu-a de cima à baixo, deteve-se na sua coxas, admirando os pequenos furinhos de suas pernas, as dobrinhas suculentas que sua barriga fazia e as curvas que não se via em revistas.
Depois de ter guardado tudo da festa no quarto, ela se sentou frente à TV na sala, com o pequeno companheiro no colo, saboreando um cacho de uvas e algum filme desses feitos para mulheres. Entre um afago e outro naquele sedoso pêlo branco, viu-a recorrer algumas vezes à caixa de lenço de papel que ficava ao lado do telefone. E lá ela caiu no sono.
E ele se manteve ali, até a hora em que a TV pré-programa desligou e não havia mais luz para lhe servir de cúmplice.
E na margem oposta, alguém se empertigou numa poltrona pretensiosa e roçou o dedo sobre o play:
Tornou a quantidade correta de vinho no cálice para então girá-lo no ar, mas fez isso no automático, hábito velho, sem nem ao menos conferir sua cor contra a parca luz que vinha da rua; seus olhos estavam longe dali.
Ainda aparada pela pia, fez festinha para o pequeno maltês bem tratado que veio ao seu encontro. Enquanto desabotoava a blusa, cruzou de novo a sala, desta vez em direção o quarto, e entrou direto no banheiro. Lá demorou por algum tempo, e o espião considerou aquilo uma tortura gentil, que, ao seu final, teve como recompensa a visão de outra daquelas boxer, dessa vez preta, como uma tarja de censura, e uma blusa de alcinha. Agradeceu à potência do seu zoom por ser capaz de fazer chegar a ele, do outro lado da rua, todo o frescor que aquele banho havia concedido.
Retornou à cozinha, e voltou saltitando ao quarto com as sacolas na mão esquerda, uma garrafinha de ice na mão direita e o animalzinho aos seus pés compartilhando da sua alegria.
Jogou-as sobre a cama e foi abrindo as caixas, estendendo seus novos pertences sobre o lençol.
— Que bom que foi um dia de boas compras para nós dois — ela teria ouvido não fosse a distancia.
Então, sorvendo aos golinhos a sua bebida, entre um giro e outro frente ao espelho com as mãos mantendo o vestido junto ao seu corpo, olhava para o seu mascote e fazia com que abanasse o rabinho.
— Quadrúpede de sorte.
Desfilou pelo quarto no alto dos sapatos novos, parando de vez em quando para ver como ficavam no pé, fazendo poses, sorrindo com seu reflexo.
— Vestido para quê, está linda assim!
Extraiu toda a potência das suas lentes, conferiu-a de cima à baixo, deteve-se na sua coxas, admirando os pequenos furinhos de suas pernas, as dobrinhas suculentas que sua barriga fazia e as curvas que não se via em revistas.
Depois de ter guardado tudo da festa no quarto, ela se sentou frente à TV na sala, com o pequeno companheiro no colo, saboreando um cacho de uvas e algum filme desses feitos para mulheres. Entre um afago e outro naquele sedoso pêlo branco, viu-a recorrer algumas vezes à caixa de lenço de papel que ficava ao lado do telefone. E lá ela caiu no sono.
E ele se manteve ali, até a hora em que a TV pré-programa desligou e não havia mais luz para lhe servir de cúmplice.
sexta-feira, novembro 07, 2008
Janela indiscreta - parte III
Foi numa quinta-feira, seu amigo fotógrafo o havia encontrado mais cedo, perto do trabalho, enquanto a maioria dos outros transeuntes caminhava para almoçar. Falaram de equipamentos e agora ele levava para casa o que havia comprado. Chegou armado de uma caixa longa, pesada, com vários sachês de silicagel. Jogou os sapatos em um canto, como de costume, mas nem se ocupou com a secretária eletrônica ou quis acender as luzes. Sabia que em breve o seu foco chegaria em casa, queria estar preparado para isso.
Violentou o embrulho, armou o tripé e aparafusou ali sua nova aquisição. Mirou pela janela, mas hoje pouco importava a foto de formatura, as notícias do jornal ou se era bife para o jantar.
Certificou-se de que ela ainda não chegara.
Arrastou para perto sua poltrona favorita, que não mais se voltava para a TV de 29". Guarneceu o novo canto com uma das elegantes e frias mesas que até então se recolhia junto à parede, exigência do decorador.
Correu até o bar, esticou a mão sobre o uísque mas hesitou. Aquilo era para os amigos e papos chulos que tinham ao redor da mesa às quartas. Queria requinte. Escolheu uma das garrafas inclinadas, sacou-lhe a rolha e levou até seu novo aparador, acompanhada de uma taça delgada e altíssima.
Como última medida, trocou o CD na aparelhagem de som, manteve o controle remoto consigo, mas sem apertar Play.
Sentou-se confortavelmente, entregue à sua perversão, aproveitando cada instante daquela espera, tendo cada minuto como algo necessário ao seu prazer.
Violentou o embrulho, armou o tripé e aparafusou ali sua nova aquisição. Mirou pela janela, mas hoje pouco importava a foto de formatura, as notícias do jornal ou se era bife para o jantar.
Certificou-se de que ela ainda não chegara.
Arrastou para perto sua poltrona favorita, que não mais se voltava para a TV de 29". Guarneceu o novo canto com uma das elegantes e frias mesas que até então se recolhia junto à parede, exigência do decorador.
Correu até o bar, esticou a mão sobre o uísque mas hesitou. Aquilo era para os amigos e papos chulos que tinham ao redor da mesa às quartas. Queria requinte. Escolheu uma das garrafas inclinadas, sacou-lhe a rolha e levou até seu novo aparador, acompanhada de uma taça delgada e altíssima.
Como última medida, trocou o CD na aparelhagem de som, manteve o controle remoto consigo, mas sem apertar Play.
Sentou-se confortavelmente, entregue à sua perversão, aproveitando cada instante daquela espera, tendo cada minuto como algo necessário ao seu prazer.
domingo, novembro 02, 2008
Janela indiscreta - parte II
— Fala, artista!
— Fala, diretor! Não tá ligando para desmarcar o poker da semana que vem porque abriu falência, né?
— Não, relaxa. Aquilo é muito dinheiro para você, para mim não.
— Opa, formou então, poker duas vezes por semana.
— Ah, tudo para vocês secarem meu uísque.
— Deixa dar mais umas semanas que eu já vou poder levar as garrafas.
Riram.
— Seguinte: queria sua ajuda, cara.
— Manda.
— Tô querendo comprar umas lentes, uma câmera legal.
— Ah, é?!
— Hobby, sabe?
— Boto fé.
— Aquele seu equipamento de ontem, sabe?, queria um daquele.
— Mas você ainda vai começar. Não quer algo mais simples?
— Tem que ter aquela potência.
— Que tipo de fotografia quer?
— Ah, sei lá. Qualquer coisa. Natureza, pronto.
— Lógico. E você vai se meter em mato, com sol na cabeça e mosquito? Você odeia suar, cara. O único esporte que faz é apanhar do Goku com o seu Playstation. Tirar foto de natureza para você é esperar quando o tigre passa no National Geographic enquanto você come batata no sofá.
— Tá, então não tiro foto de natureza. Arquitetura, pronto.
— Cansei. Qual é do lance?
— Quero uma máquina, cara.
— Sim, verdade. Mas para quê?
— Hobby, cacete!
— Ainda que você fosse bom mentiroso, a gente é parceiro há 20 anos.
— Só queria uma lente como aquela sua. Gostei.
— E quer ver o quê?
Essa resposta não veio tão depressa:
— Ah, achei legal ontem ficar vendo...
— Aquela sua vizinha gostosa! — completou claramente alterado.
— Não!
— Tu sempre mentiu mal!
— Porra, não!
— Vinte anos, cara, quem diria, você se tornaria um voyeur?
— Pára, sério.
— Masoquista eu teria chutado, ficar sendo dominado por mulher gorda em botão de couro.
— Pára, cara!
— Gay nem pensar, você é quadrado demais para isso. Voyeur, nunca...
— Esquece, liguei para a pessoa errada.
— Ah, chega de drama! Quer minha ajuda eu te dou, tu sabe. Mas você não me engana, filho. O Goku sempre te dá coça, mas no poker não é dos piores. E ontem perdeu feio demais. Quase precisei de pé-de-cabra para te tirar daquela janela. Saquei que alguma coisa tinha te acertado ali.
Silêncio.
— Te encontro aí no Centro. Preciso mesmo buscar umas coisas. Aí na sua rua mesmo.
— Muito obrigado.
— De nada, voyeur.
— Fala, diretor! Não tá ligando para desmarcar o poker da semana que vem porque abriu falência, né?
— Não, relaxa. Aquilo é muito dinheiro para você, para mim não.
— Opa, formou então, poker duas vezes por semana.
— Ah, tudo para vocês secarem meu uísque.
— Deixa dar mais umas semanas que eu já vou poder levar as garrafas.
Riram.
— Seguinte: queria sua ajuda, cara.
— Manda.
— Tô querendo comprar umas lentes, uma câmera legal.
— Ah, é?!
— Hobby, sabe?
— Boto fé.
— Aquele seu equipamento de ontem, sabe?, queria um daquele.
— Mas você ainda vai começar. Não quer algo mais simples?
— Tem que ter aquela potência.
— Que tipo de fotografia quer?
— Ah, sei lá. Qualquer coisa. Natureza, pronto.
— Lógico. E você vai se meter em mato, com sol na cabeça e mosquito? Você odeia suar, cara. O único esporte que faz é apanhar do Goku com o seu Playstation. Tirar foto de natureza para você é esperar quando o tigre passa no National Geographic enquanto você come batata no sofá.
— Tá, então não tiro foto de natureza. Arquitetura, pronto.
— Cansei. Qual é do lance?
— Quero uma máquina, cara.
— Sim, verdade. Mas para quê?
— Hobby, cacete!
— Ainda que você fosse bom mentiroso, a gente é parceiro há 20 anos.
— Só queria uma lente como aquela sua. Gostei.
— E quer ver o quê?
Essa resposta não veio tão depressa:
— Ah, achei legal ontem ficar vendo...
— Aquela sua vizinha gostosa! — completou claramente alterado.
— Não!
— Tu sempre mentiu mal!
— Porra, não!
— Vinte anos, cara, quem diria, você se tornaria um voyeur?
— Pára, sério.
— Masoquista eu teria chutado, ficar sendo dominado por mulher gorda em botão de couro.
— Pára, cara!
— Gay nem pensar, você é quadrado demais para isso. Voyeur, nunca...
— Esquece, liguei para a pessoa errada.
— Ah, chega de drama! Quer minha ajuda eu te dou, tu sabe. Mas você não me engana, filho. O Goku sempre te dá coça, mas no poker não é dos piores. E ontem perdeu feio demais. Quase precisei de pé-de-cabra para te tirar daquela janela. Saquei que alguma coisa tinha te acertado ali.
Silêncio.
— Te encontro aí no Centro. Preciso mesmo buscar umas coisas. Aí na sua rua mesmo.
— Muito obrigado.
— De nada, voyeur.
quarta-feira, outubro 29, 2008
Janela indiscreta - parte I
Foi numa quarta-feira, seu amigo fotógrafo chegou um pouco mais cedo, direto do trabalho, enquanto os outros parceiros do poker se atrasaram. Falando de equipamentos, mostrou o novo conjunto de lentes telescópicas que havia comprado. A belezinha vinha com vários sachês de silicagel, o que denotava seu altíssimo valor e qualidade. Não satisfeito em apresentar os dados numéricos da capacidade, quis mostrá-lhe empiricamente. Mirou pela janela, mostrou a foto da formatura da filha do vizinho exposta acima da cristaleira; acompanhou o jornal pela TV do apartamento mais abaixo; viu que a família que morava virada para esquina preferia bife mal-passado. E só então perceberam que separados por menos de dois quarteirões, estava ali uma beldade, chegando tarde do trabalho. Os sapatos foram as primeiras coisas a tirar daquela pesada armadura. Sumiu na passagem pelo corredor, reapareceu no quarto para tornar a sumir depois de acender a luz do banheiro, minutos depois voltou à sala enfiada numa boxer feminina branca e uma T-shirt recortada qualquer. Os cabelos negros se erguiam num coque desleixado, exibindo a nuca completamente nua e branca. O interfone tocou e demorou a ser atendido.
O jogo correu, como de costume, com as trincas e duplas de sempre. Mas o jogador da casa perdeu de lavada.
E assim ele descobriu a sua perversão. A vida inteira todos os acusaram de ser quadrado, pouco inventivo, cartesiano demais. Mal sabiam que sob aquela égide de olhos pacatos e rotinas imperativas, havia um voyeur tenaz, capaz de investir o que fosse necessário pelo seu prazer.
O jogo correu, como de costume, com as trincas e duplas de sempre. Mas o jogador da casa perdeu de lavada.
E assim ele descobriu a sua perversão. A vida inteira todos os acusaram de ser quadrado, pouco inventivo, cartesiano demais. Mal sabiam que sob aquela égide de olhos pacatos e rotinas imperativas, havia um voyeur tenaz, capaz de investir o que fosse necessário pelo seu prazer.
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