quarta-feira, outubro 29, 2008

Janela indiscreta - parte I

Foi numa quarta-feira, seu amigo fotógrafo chegou um pouco mais cedo, direto do trabalho, enquanto os outros parceiros do poker se atrasaram. Falando de equipamentos, mostrou o novo conjunto de lentes telescópicas que havia comprado. A belezinha vinha com vários sachês de silicagel, o que denotava seu altíssimo valor e qualidade. Não satisfeito em apresentar os dados numéricos da capacidade, quis mostrá-lhe empiricamente. Mirou pela janela, mostrou a foto da formatura da filha do vizinho exposta acima da cristaleira; acompanhou o jornal pela TV do apartamento mais abaixo; viu que a família que morava virada para esquina preferia bife mal-passado. E só então perceberam que separados por menos de dois quarteirões, estava ali uma beldade, chegando tarde do trabalho. Os sapatos foram as primeiras coisas a tirar daquela pesada armadura. Sumiu na passagem pelo corredor, reapareceu no quarto para tornar a sumir depois de acender a luz do banheiro, minutos depois voltou à sala enfiada numa boxer feminina branca e uma T-shirt recortada qualquer. Os cabelos negros se erguiam num coque desleixado, exibindo a nuca completamente nua e branca. O interfone tocou e demorou a ser atendido.
O jogo correu, como de costume, com as trincas e duplas de sempre. Mas o jogador da casa perdeu de lavada.
E assim ele descobriu a sua perversão. A vida inteira todos os acusaram de ser quadrado, pouco inventivo, cartesiano demais. Mal sabiam que sob aquela égide de olhos pacatos e rotinas imperativas, havia um voyeur tenaz, capaz de investir o que fosse necessário pelo seu prazer.

2 comentários:

Criptor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Justo disse...

Já esta em meu blog, com os devidos créditos..
Se não houver impedimento , é claro!