Da primeira vez que vira o apartamento com o senhorio, não havia
percebido a perfeição de sua arquitetura, apenas havia gostado da
possibilidade de se afundar numa banheira de água quente quando
precisasse relaxar. Mas então o tempo e o uso haviam lhe mostrado como
tudo estava realmente em seu devido lugar. O rack de toalhas próximo à
porta sustentava o aparelho de som que tocava músicas em modo menor e
letras em lamentos, a disposição do espelho era perfeita para que
pudesse olhar seu rosto banhado de lágrimas, emoldurado pelos cabelos
molhados que desciam pelos ombros mesmo confortavelmente sentada durante
o banho. A janela basculante suspensa acima do chuveiro, voltada para o
prisma do prédio fornecia uma acústica perfeita para que seu pranto
ecoasse sem grande esforço aos vizinhos, pelo menos àqueles das colunas 2
e 3.
Na primeira vez em que se indulgenciou ao rumino de suas
feridas, fora apenas atendendo uma necessidade simples e básica. Só que
depois fora agradavelmente surpreendida pelos olhares condescendentes
dos vizinhos, das palavras abstratas de consolo daqueles que cruzavam
com ela na área comum; inclusive recebera com prazer por baixo da sua
porta o panfleto em que dizia "entregue seu sofrimento ao Senhor e ele
não será mais em seu peito". Todos, ao menos das colunas 2 e 3,
começaram a demonstrar uma gentileza crescente. Todos, menos aquele
professor de literatura do 802, Henrique se a memória não lhe traía, que
se limitava a dar um bom-dia formal ao cruzar com ela no elevador e
tratava sempre de sair logo do hall de entrada quando algumas vizinhas
se encontravam e tentavam confortá-la. Ele não dava um sorriso cordial, nuca
perguntou o que havia se passado, sequer se estava melhor, não fazia
nenhuma outra gentileza além daquelas que já mandavam a boa educação.
Bem que comentaram que ele era gay. E insensível.
Assim então
cresceu o costume. E quando lhe faltava qualquer justificativa, ligava
para a mãe ou irmã e não se dava por satisfeita enquanto não estivesse
aos prantos causados por uma discussão qualquer. Na manhã que se seguia, era como música para os ouvidos o
toque da campainha. A vizinha de porta que, depois de deixar os meninos
na escola, sempre a chamava para uma conversa de ombro-amigo com café fresco e
uma fatia de bolo; situação perfeita para poder pintar a sua família tão ou
mais cruel do que via.
Foi então que na véspera do feriado deu-se
conta de que o consultor de informática com quem havia saído algumas
vezes não a havia incluído em seus planos de viagem. Teria o feriado
inteiro para tentar se convencer mais uma vez de que os homens eram
todos iguais. Desta vez fora fundo a dor, não era apenas mais uma
discussão com a mãe que já sabia como terminaria, não fora uma chamada
de atenção no trabalho, nem mesmo aquelas fofocas das colegas do
escritório. E o coração de mulher rejeitada pedia algo ainda mais
sensível do que o de sempre. Quando começou a tocar "Unbreak my heart"
sabia que tinha achado o bálsamo para sua alma.
Afundou o corpo na
água enquanto o vapor escalava os azulejos brancos das paredes. Abriu
as comportas de seu canto de lamentação, como um lobo que uivava à lua.
Pensou no vazio dos dias seguintes, o esgotamento de suas energias ao
ver mais um relacionamento dar em nada, a não-correspondência de seus
sentimentos.
Num relance achou que a música podia estar mais alta.
Pôs-se de pé para aumentar o volume, esticou os dedos e pressionou três
vezes o botão. E ao tentar voltar para o seu ninho de acolhimento,
desastradamente puxou a cortina do box que lambeu os frascos para o
chão. Ao ver o xampu caríssimo correndo em direção ao ralo, empenhou-se
em resolver aquilo o mais rápido possível para evitar mais desperdício.
Deixou o choro um pouco de lado, ignorou toda a emoção de "How could an
angel break my heart"e agiu prontamente.
Quando tudo já estava em
segurança, voltava para a banheira, tentando se lembrar onde havia
parado em seus pensamentos. E foi aí que a porta abriu de supetão. Num
reflexo olhou para a entrada do banheiro e viu a vizinha de andar que
sempre lhe dava apoio com o rapaz lutador do andar de baixo. De pé na
banheira, o corpo ainda molhado, tratou de puxar a toalha para se
cobrir.
– Ai, desculpa, amiga! Eu ouvi um barulho forte vindo
daqui, achei que tivesse acontecido alguma coisa, e com a música alta
você não me ouviu te chamar. Eu usei a cópia da sua chave pra entrar e
interfonei pra ele porque se algo tivesse acontecido, teria alguém forte
pra me ajudar.
– Ai, desculpa eu pela confusão, gente. A cortina
caiu mas eu to bem. – A voz começava a ser entrecortada pelo soluço. –
Acho que hoje não é meu dia mesmo, viu?
Segurava a toalha com uma
das mãos à frente do corpo, tapando os seios e o sexo, enquanto com a
outra mão tentava enxugar as lágrimas. E ainda conseguiu, estrategicamente, se
aproveitar do espelho atrás para poder mostrar suas curvas ao vizinho.
Banheiro perfeito, nunca falhava.
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quinta-feira, maio 17, 2012
segunda-feira, abril 20, 2009
Metrópole - parte 8
Dentro do elevador, já dava os últimos retoques, certificando-se de que estava tudo como queria que estivesse. Roubou o batom e os cigarros ultra-longos da mãe, aquela saia justíssima da irmã mais nova e já havia perdido toda a tarde no salão para que o cabelo tivesse aqueles cachinhos na ponta. Depois de três dias treinando, já estava segura sobre os saltos altíssimos, não tinha mais medo de cair.
Assim que chegou no andar, abriu a porta com muita cautela, espiou furtivamente para dentro do hall e correu para as escadas. Ligeiramente ofegante, mais pela excitação do momento do que pelo pequeno esforço físico, escondeu-se ao lado da mangueira de incêndio, sem acender a luz do corredor ou fazer qualquer barulho. Manteve-se ali por algum tempo, escutando sempre o barulho que vinha do apartamento. Ouviu uma música começar e terminar, e outra, e mais outra. Até que escutou os versos:
I love to love you baby
I love to love you baby
Então se apressou para entrar na festa ao som de:
I'm feeling sexy
I wanna hear you say my name, boy
If you can reach me
You can feel my burning flame
Completou toda a sua produção com um sorriso falsamente singelo no canto da boca, e aproveitou para andar em câmera lenta em meio ao frisson que seu visual tinha causado. Viu cada um, sem olhar verdadeiramente ninguém, cumprimentou os conhecidos com jogadas estratégicas do cabelo enquanto cruzava o salão para pousar no canto do bar. Aí então deixou para olhar com desprezo para seu ex, enquanto ele a olhava com um misto de raiva e frustração. E sob o olhar dele, fez o favor de puxar um cigarro e pedir fogo a um estranho qualquer, usando sua voz rouca destilada em seus lábios vermelhos, enquanto, intimamente, sentia que todo seu trabalho havia valido a pena.
Assim que chegou no andar, abriu a porta com muita cautela, espiou furtivamente para dentro do hall e correu para as escadas. Ligeiramente ofegante, mais pela excitação do momento do que pelo pequeno esforço físico, escondeu-se ao lado da mangueira de incêndio, sem acender a luz do corredor ou fazer qualquer barulho. Manteve-se ali por algum tempo, escutando sempre o barulho que vinha do apartamento. Ouviu uma música começar e terminar, e outra, e mais outra. Até que escutou os versos:
I love to love you baby
I love to love you baby
Então se apressou para entrar na festa ao som de:
I'm feeling sexy
I wanna hear you say my name, boy
If you can reach me
You can feel my burning flame
Completou toda a sua produção com um sorriso falsamente singelo no canto da boca, e aproveitou para andar em câmera lenta em meio ao frisson que seu visual tinha causado. Viu cada um, sem olhar verdadeiramente ninguém, cumprimentou os conhecidos com jogadas estratégicas do cabelo enquanto cruzava o salão para pousar no canto do bar. Aí então deixou para olhar com desprezo para seu ex, enquanto ele a olhava com um misto de raiva e frustração. E sob o olhar dele, fez o favor de puxar um cigarro e pedir fogo a um estranho qualquer, usando sua voz rouca destilada em seus lábios vermelhos, enquanto, intimamente, sentia que todo seu trabalho havia valido a pena.
sexta-feira, dezembro 12, 2008
Metrópole - parte 7
Entrou no seu 4X4, acomodando-se em seus bancos de couro. Ligou o radio na mesma estação light de todos os dias e pousou suas mãos bem tratadas no volante. Trocava as ultimas recomendações com seu empregado no banco do carona enquanto dava a partida no motor. Acelerou e fez as lâmpadas da garagem se sucederem em reflexos contra a sua lataria polida.
Seguindo o caminho, reconheceu junto à entrada o carro de sua vizinha, a mesma com a qual discutira na ultima reunião, que não cumprimentava no elevador e sobre quem adorava fofocar.
Somente quando passou-lhe próximo viu que lá estava ela com seu marido, alto e belo, abraçados num longo beijo amoroso. As mãos grandes dele em torno de seu rosto delicado, o corpo esguio encaixado num abraço caloroso, os vidros do carro ligeiramente embaçados, apesar das portas semi-abertas. Pôde, entre a pausa de uma música e outra, ouvir os versos que vinham do rádio:
I've seen this room and I've walked this floor
You know, I used to live alone before I knew you
E entendeu porque a odiava, porque era-lhe tão detestável, porque não soube se conter diante dela; percebeu aquilo que seu carro não tinha, não importasse os bancos de couro, o interior forrado, o painel em mogno. Apesar de tudo isso, não era naquele carro que desejava estar.
— Que sem classe, fazer isso aqui! E ainda nesse carro de cor cafona!
Seguindo o caminho, reconheceu junto à entrada o carro de sua vizinha, a mesma com a qual discutira na ultima reunião, que não cumprimentava no elevador e sobre quem adorava fofocar.
Somente quando passou-lhe próximo viu que lá estava ela com seu marido, alto e belo, abraçados num longo beijo amoroso. As mãos grandes dele em torno de seu rosto delicado, o corpo esguio encaixado num abraço caloroso, os vidros do carro ligeiramente embaçados, apesar das portas semi-abertas. Pôde, entre a pausa de uma música e outra, ouvir os versos que vinham do rádio:
I've seen this room and I've walked this floor
You know, I used to live alone before I knew you
E entendeu porque a odiava, porque era-lhe tão detestável, porque não soube se conter diante dela; percebeu aquilo que seu carro não tinha, não importasse os bancos de couro, o interior forrado, o painel em mogno. Apesar de tudo isso, não era naquele carro que desejava estar.
— Que sem classe, fazer isso aqui! E ainda nesse carro de cor cafona!
sexta-feira, julho 11, 2008
Metrópole - parte 6
Logo após o último lance de escada, fechou a porta atrás de si. Os operários estavam fora já fazia tempo, ninguém apareceria ali para incomodá-lo. Ou dissuadí-lo. Checou a vedação dos plásticos para proteger o piso e as paredes dos estragos das obras. Estavam perfeitos, como deviam ser.
Puxou a cadeira velha e empoeirada ao centro do salão, deixando bem à frente da grande janela que se estendia de uma ponta à outra, por onde entrava toda a luminosidade.
Sentou-se, livrando-se do saco de papel pardo. Ali, não precisava mais de disfarce algum. Não havia mais ninguém de quem ocultar a pistola que o acompanhara na escalada até o último pavimento. Apoiou os cotovelos nos joelhos enquanto observava as luzes da metrópole correrem por seu esmalte cromado. Engatilhou, pôs o cano na boca, recostou.
Fechou os olhos e abaixou a arma.
Tentou fitá-la novamente, sem medo como antes. Se não fosse por ela, seria pelo ônibus furando o sinal, pelos freios falhos do carro, pela gordura envelhecida do bacon, câncer dos refrigerantes, enfarto dos noticiários, efizema dos escapamentos, febre da vida, pelos dias deixados pelas ruas. Ali era a chave de se poupar de tudo aquilo. ...não?
Baixou de novo a cabeça, pensou de novo nas luzes, da metrópole. E ouviu seus ruídos.
Puxou a cadeira velha e empoeirada ao centro do salão, deixando bem à frente da grande janela que se estendia de uma ponta à outra, por onde entrava toda a luminosidade.
Sentou-se, livrando-se do saco de papel pardo. Ali, não precisava mais de disfarce algum. Não havia mais ninguém de quem ocultar a pistola que o acompanhara na escalada até o último pavimento. Apoiou os cotovelos nos joelhos enquanto observava as luzes da metrópole correrem por seu esmalte cromado. Engatilhou, pôs o cano na boca, recostou.
Fechou os olhos e abaixou a arma.
Tentou fitá-la novamente, sem medo como antes. Se não fosse por ela, seria pelo ônibus furando o sinal, pelos freios falhos do carro, pela gordura envelhecida do bacon, câncer dos refrigerantes, enfarto dos noticiários, efizema dos escapamentos, febre da vida, pelos dias deixados pelas ruas. Ali era a chave de se poupar de tudo aquilo. ...não?
Baixou de novo a cabeça, pensou de novo nas luzes, da metrópole. E ouviu seus ruídos.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
A metrópole assiste e sorri pensativamente
Começa como um comichão. Como se uma voz chamasse, sei lá de onde, de quem, qual sexo, idade ou sotaque; não conheço. Mas meus tímpanos continuam estáticos. E a voz não cala.
E tento deixar o meu próprio corpo, as minhas próprias vozes, para alçar um vôo sobre metal e vidro, luzes e asfalto, tentando encontrar este uivo surdo à lâmpada incandescente. Não me interessa quem é, que pode ser e para onde vai. Tudo que desejo é volitar sobre sua cabeça por um breve instante, pairar diante da sua janela em um curto momento para ouvir poucas palavras que essa mesma voz jamais articulará em verbo. São muitas vozes, você sabe, então não importa a embriaguez do vôo ou a melodia do canto, o tempo é sempre curto. E lanço-me no ar sem nunca saber quando volto, a busca pode durar dias; a última durou semanas. São muitas vozes, você sabe. E encontrá-la é como um acorde de tônica em final feminino, a coceira passa. Daí é a minha vez de entoar o canto, de uma voz que não é minha, mas que é minha a canção:
E tento deixar o meu próprio corpo, as minhas próprias vozes, para alçar um vôo sobre metal e vidro, luzes e asfalto, tentando encontrar este uivo surdo à lâmpada incandescente. Não me interessa quem é, que pode ser e para onde vai. Tudo que desejo é volitar sobre sua cabeça por um breve instante, pairar diante da sua janela em um curto momento para ouvir poucas palavras que essa mesma voz jamais articulará em verbo. São muitas vozes, você sabe, então não importa a embriaguez do vôo ou a melodia do canto, o tempo é sempre curto. E lanço-me no ar sem nunca saber quando volto, a busca pode durar dias; a última durou semanas. São muitas vozes, você sabe. E encontrá-la é como um acorde de tônica em final feminino, a coceira passa. Daí é a minha vez de entoar o canto, de uma voz que não é minha, mas que é minha a canção:
Metrópole - parte 5
Em meio às lamentações do passado e antenas de automóveis, viu aquela bela figura fazendo sinal da calçada. Encostou o táxi não sem antes trocar a estação para aquela com músicas de motel, estratégica. A porta de trás abriu e entrou uma mala grande que desceu sem jeito sobre o banco. Logo a porta do carona se abre, ela recolheu a barra da saia e enfiou aquela longa e corada perna carro a dentro.
Ele, que sempre se considerara muito descolado com as mulheres, não conseguiu manter seu pulso inalterado ao ver aquele joelho feminino que trazia consigo uma brisa de perfume floral. O último aroma que aqueles bancos haviam provado era do sachê que o posto de gasolina havia dado aos clientes na Copa.
A porta se fechou, ele engatou a primeira e só depois lembrou de zerar o taxímetro.
— Boa tarde, para onde eu levo a senhora? — Mal sabia ela que essa pergunta só algumas poucas passageiras escutavam.
— Centro.
A boca secou, os lábios selaram. Futebol, novela, política, tempo; nenhum assunto parecia caber-lhe. A passageira inclinou-se enfiando as mãos na bolsa, puxou uma necessaire, abriu o pára-sol, retocou o batom e desfez os nós dos cabelos esvoaçantes. E aquilo lhe provocou um sorriso velado, inadequado. Afundou ainda mais no assento, acomodando-se naquela sensação, deixou fingir que aquela mulher era a sua, que estaria levando-a para onde quer que fosse e que no final seus lábios estariam manchados daquele vermelho vivo. Buscou-a no canto da vista, ela olhava pela janela, seguindo o Pão de Açúcar com os olhos. Buscou qualquer sinal, ouviu-a murmurando a música que tocava. Então esticou a mão e subiu o volume dois pontos. Ela fez uma pausa. E voltou a murmurar.
Depois da curva, ele reduziu a marcha e freou. Engarrafamento.
Ao contrário do que alguns pensam, ele odiava. Mesmo com o taxímetro ainda rodando, sempre tinha a sensação de que retenções no trânsito eram anti-produtivas e dispendiosa. Mas ali não. Deixasse-o fingir mais um pouco, e aquele perfume se fixar melhor no forro do estofamento.
Ele, que sempre se considerara muito descolado com as mulheres, não conseguiu manter seu pulso inalterado ao ver aquele joelho feminino que trazia consigo uma brisa de perfume floral. O último aroma que aqueles bancos haviam provado era do sachê que o posto de gasolina havia dado aos clientes na Copa.
A porta se fechou, ele engatou a primeira e só depois lembrou de zerar o taxímetro.
— Boa tarde, para onde eu levo a senhora? — Mal sabia ela que essa pergunta só algumas poucas passageiras escutavam.
— Centro.
A boca secou, os lábios selaram. Futebol, novela, política, tempo; nenhum assunto parecia caber-lhe. A passageira inclinou-se enfiando as mãos na bolsa, puxou uma necessaire, abriu o pára-sol, retocou o batom e desfez os nós dos cabelos esvoaçantes. E aquilo lhe provocou um sorriso velado, inadequado. Afundou ainda mais no assento, acomodando-se naquela sensação, deixou fingir que aquela mulher era a sua, que estaria levando-a para onde quer que fosse e que no final seus lábios estariam manchados daquele vermelho vivo. Buscou-a no canto da vista, ela olhava pela janela, seguindo o Pão de Açúcar com os olhos. Buscou qualquer sinal, ouviu-a murmurando a música que tocava. Então esticou a mão e subiu o volume dois pontos. Ela fez uma pausa. E voltou a murmurar.
Depois da curva, ele reduziu a marcha e freou. Engarrafamento.
Ao contrário do que alguns pensam, ele odiava. Mesmo com o taxímetro ainda rodando, sempre tinha a sensação de que retenções no trânsito eram anti-produtivas e dispendiosa. Mas ali não. Deixasse-o fingir mais um pouco, e aquele perfume se fixar melhor no forro do estofamento.
terça-feira, outubro 23, 2007
Metrópole - parte 4
Calçou os sapatos de chuva e deu a última olhada diante do espelho. Respirou fundo, como um meio de reter mais daquela boa sensação. Era mais um dia de levantar-se antes do sol, nada de especial ou incomum. Exceto que estava lá, diante do seu próprio armário, próximo ao seu banheiro, novamente. Por algumas semanas, teve a impressão de que aquilo tudo seria parte exclusivamente de seu passado. Em alguns momentos, o divórcio pareceu inevitável, iminente, necessário. Mas como uma longa tempestade, contrariou a impressão de que era permanente e se foi. Passava os momentos em sua cabeça para tentar descobrir quando foi que encontraram o rumo de volta ao outro. Teria sido durante a peça do filho na escola, ao fechamento do novo contrato ou ao temor de que pudesse ser ela naquela notícia?
Circunstâncias, pensou.
Deteve-se ante a cama, viu volume aninhado sob os lençóis. Sorriu e se aproximou.
Deu um beijo seguido de uma longa inspirada. Deu mais um beijo. Recebeu um sorriso em retorno; um abraço forte. Por um momento curto deixou-se aninhar na calidez dos lençóis e das carícias. Fez menção de levantar, mas o abraço não afroxou. Riram.
— Eu volto mais cedo para te dar mais um beijo.
Circunstâncias, pensou.
Deteve-se ante a cama, viu volume aninhado sob os lençóis. Sorriu e se aproximou.
Deu um beijo seguido de uma longa inspirada. Deu mais um beijo. Recebeu um sorriso em retorno; um abraço forte. Por um momento curto deixou-se aninhar na calidez dos lençóis e das carícias. Fez menção de levantar, mas o abraço não afroxou. Riram.
— Eu volto mais cedo para te dar mais um beijo.
quarta-feira, setembro 19, 2007
Metrópole - parte 3
—E esse tempo não abre?
Reclamou às núvens como quem espera ser atendido. Descolava a camisa molhada do corpo enquanto se chacoalhava numa tentativa inútil de se secar.
Estava sozinho, sem as prestativas e adestradas secretárias. Onde teria uma toalha seca? Talvez no mesmo armário com o jaleco e os aventais.
Não.
Pingava por todo o piso do prórpio consultório sem sucesso. Jogou-se na sala de espera, definitvamente mau-humorado. Puxou o celular para saber quando uma delas chegaria; era uma emergência, afinal.
Sem resposta.
Primeira vez em dias que se sentava sozinho, sem família, funcionárias ou pacientes. Puxou do bolso o bilhete, releu as frases finais, não sou uma doença para você tratar, e nunca serei a sua esposa para ter seu respeito. Acabou. Respirou fundo sem reagir. Pensou "mal sabe ela que mal sei tratar uma doença".
Levantou-se secando o rosto, fingindo para si mesmo que aquela nova gota correndo no rosto, mesmo ali fechado, ainda era da chuva.
Ligou o rádio, já tivera mais silêncio do que precisava.
Parou diante da parede vazia enquanto aquela música pretensiosa e cafona, típica de consultórios, cobria parte do som da chuva; as mãos pousadas na cintura gorda. Concentrou-se na sensação provocada pelas gotas que corriam pela cabeça calva, causando arrepio; mas naquele momento pareciam nada.
Trovão.
Breu. Deveria ser algum disjuntor.
Reclamou às núvens como quem espera ser atendido. Descolava a camisa molhada do corpo enquanto se chacoalhava numa tentativa inútil de se secar.
Estava sozinho, sem as prestativas e adestradas secretárias. Onde teria uma toalha seca? Talvez no mesmo armário com o jaleco e os aventais.
Não.
Pingava por todo o piso do prórpio consultório sem sucesso. Jogou-se na sala de espera, definitvamente mau-humorado. Puxou o celular para saber quando uma delas chegaria; era uma emergência, afinal.
Sem resposta.
Primeira vez em dias que se sentava sozinho, sem família, funcionárias ou pacientes. Puxou do bolso o bilhete, releu as frases finais, não sou uma doença para você tratar, e nunca serei a sua esposa para ter seu respeito. Acabou. Respirou fundo sem reagir. Pensou "mal sabe ela que mal sei tratar uma doença".
Levantou-se secando o rosto, fingindo para si mesmo que aquela nova gota correndo no rosto, mesmo ali fechado, ainda era da chuva.
Ligou o rádio, já tivera mais silêncio do que precisava.
Parou diante da parede vazia enquanto aquela música pretensiosa e cafona, típica de consultórios, cobria parte do som da chuva; as mãos pousadas na cintura gorda. Concentrou-se na sensação provocada pelas gotas que corriam pela cabeça calva, causando arrepio; mas naquele momento pareciam nada.
Trovão.
Breu. Deveria ser algum disjuntor.
terça-feira, agosto 21, 2007
Metrópole - parte 2
* Para evitar mais sustos, o post que se segue é puramente ficcional.
Acordou. Sem saber se pela dor dos hematomas ou se pela luz entrando pela janela que antes era coberta pela cortina. A cortina? Tinha sido a primeira a lhe dar amparo, e naturalmente a primeira a cair, quando fora atingida pela primeira vez. Ergueu-se. As pernas ainda bambas, por dor ou por medo de que ele ainda pudesse estar ali. Olhou em volta, nada; olhou pela janela, o carro não estava na entrada de casa. Respirou fundo, minimamente aliviada.
Caminhou até o espelho, talvez a única coisa que ficara intacta ali. Tirou o cabelo do rosto e examinou as feridas o máximo que pôde no espaço ínfimo de tempo entre olhar o reflexo e ter a visão embaçada pelas lágrimas. Cobriu o rosto, teve vergonha daqueles olhos que a examinavam da parede. Soluçou, e o soluço trouxe a seqüência dos fatos, dos gritos e dos estilhaços. Agradeceu pela decisão de mandar os filhos para o sul para passar as férias com a avó e os primos. Como testemunhas ou vítimas, não os queria ali.
Tentou se recompôr, prendeu o cabelo ignorando a dor das concusões, ajeitou o fino casaco de lã, tentando tapar com as mãos os rombos abertos no tecido. Botou uma das cadeiras, a única ainda interia, de pé e sentou-se. De cabeça baixa, por um momento breve, sua mente não se deteve em nada. E então pensou e refletiu. Já vira o marido irado antes, ele já havia segurado seu braço com força, mas nada grave, uma pequena vermelhidão e só. Mas na noite passada, tudo fora diferente. A última frase dele que retinha em sua memória dizia "viu o que me fez fazer?"
A campainha tocou.
Acordou. Sem saber se pela dor dos hematomas ou se pela luz entrando pela janela que antes era coberta pela cortina. A cortina? Tinha sido a primeira a lhe dar amparo, e naturalmente a primeira a cair, quando fora atingida pela primeira vez. Ergueu-se. As pernas ainda bambas, por dor ou por medo de que ele ainda pudesse estar ali. Olhou em volta, nada; olhou pela janela, o carro não estava na entrada de casa. Respirou fundo, minimamente aliviada.
Caminhou até o espelho, talvez a única coisa que ficara intacta ali. Tirou o cabelo do rosto e examinou as feridas o máximo que pôde no espaço ínfimo de tempo entre olhar o reflexo e ter a visão embaçada pelas lágrimas. Cobriu o rosto, teve vergonha daqueles olhos que a examinavam da parede. Soluçou, e o soluço trouxe a seqüência dos fatos, dos gritos e dos estilhaços. Agradeceu pela decisão de mandar os filhos para o sul para passar as férias com a avó e os primos. Como testemunhas ou vítimas, não os queria ali.
Tentou se recompôr, prendeu o cabelo ignorando a dor das concusões, ajeitou o fino casaco de lã, tentando tapar com as mãos os rombos abertos no tecido. Botou uma das cadeiras, a única ainda interia, de pé e sentou-se. De cabeça baixa, por um momento breve, sua mente não se deteve em nada. E então pensou e refletiu. Já vira o marido irado antes, ele já havia segurado seu braço com força, mas nada grave, uma pequena vermelhidão e só. Mas na noite passada, tudo fora diferente. A última frase dele que retinha em sua memória dizia "viu o que me fez fazer?"
A campainha tocou.
segunda-feira, agosto 06, 2007
Metrópole - parte 1
Ele correu os dedos longos pelos cabelos bem cortados antes de abrir a grande porta bordô. Apesar daquela sensação que sempre lhe atingia antes de vislumbrar aqueles penteados de mau gosto imersos naquela fumaça que nunca passava, tudo ali estava na mesma. As garçonetes espremidas em suas saias que mais mostravam do que cobriam continuavam a extorquir fartas gorjetas com seus decotes; a ala dos motoristas de taxi que iam lá mais pelo uísque falsificado do que pelas daçarinas mantinham seus olhares apáticos sob os bonés gastos; os imbecís que sempre se apaixonavam pelas strippers continuavam se humilhando munidos de bombons de licor barato; aquele sujeito, o único destoante, sempre com seus ternos bem cosidos e mãos bem cuidadas, continuava a misturar o cheiro do seu Cohiba com Derby Light; e aquela mulher, a única ali que já passara da idade de ganhar a vida com o próprio corpo, continuava naquele mesmo banco, com seus lábios e unhas carmins que nunca desbotavam, seu olhar de ressaca sob os cílios postiços, sorvendo lentamente aquele martini que nunca acabava.
Mas nada interessava, lá era seu local de trabalho, e só. Acenou ao barman como quem já estava lá há infinitamente mais tempo do que queria, abriu o estojo, fez o metal reluzir sob a luz que mais escurecia do que iluminava, e começou a tocar.
A cortina se abre com uma longa perna erguida (ou seria armada?) em um scarpin de vinil vermelho. Velhos conhecidos, lembrava-se daquele sapato, já havia percorrido aquela perna de uma ponta à outra.
Pensaria naquilo em outra hora, como sempre...
Ré Sol Ré Fá Ré
Mas nada interessava, lá era seu local de trabalho, e só. Acenou ao barman como quem já estava lá há infinitamente mais tempo do que queria, abriu o estojo, fez o metal reluzir sob a luz que mais escurecia do que iluminava, e começou a tocar.
A cortina se abre com uma longa perna erguida (ou seria armada?) em um scarpin de vinil vermelho. Velhos conhecidos, lembrava-se daquele sapato, já havia percorrido aquela perna de uma ponta à outra.
Pensaria naquilo em outra hora, como sempre...
Ré Sol Ré Fá Ré
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