terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Afogando-me

Derretendo hoje aqui de calor, olhei para o meu velho armário lilás, que abriga o meu baú de recordações, e resolvi mergulhar neste oceano vasto de anos atrás em busca de um pequeno tesouro que possuo.
Em 1995, eu fui a um encontro de quadrinhos que teve aqui no Rio. Me meti lá, no meio da Tijuca, mais acompanhando meus amigos do que indo beber de um evento como este. Hoje, que sou cada dia mais seduzida por este universo, vejo que plantei uma semente maravilhosa para o meu futuro. Já naquela época, eu não me arrependi de ter lá marcado presença, tanto que voltei vários dias, até o fim; conheci gente muito legal, terminei descobrindo que eu conhecia um pouco mais do que imaginava e tive o prazer (e a onda!) de ter visto de perto o lendário Jim Lee. Admito que marquei bobeira em não ter pegado um autógrafo seu, mas, em compensação, peguei do Roger Cruz. Meu irmão ficou dizendo que eu devia ter pedido a ele que desenhasse um Gambit para mim, mas eu terminei a discussão dizendo que eu havia recebido algo que ele não tinha: um sorriso do ilustrador, então, eu tinha ganhado mais; e senti minha teoria confirmada quando ele fechou a cara.
Enfim, foi atrás deste pequeno tesouro que fui. Estava lá no fundo do meu baú. Alguns podem dizer que foi uma imprudência não guardar isso entre camadas de vidro blindado grosso, por trás de portas blindadas guarnecidas com um cachorro de três cabeças (ou três cachorros de uma cabeça só) com suas coleiras blindadas, mas o fato é que estava num lugar bem guardado, a salvo. Meus antigos cards de heróis Marvels, por exemplo, parecem ter saído do plástico ontem. E nessas marés dos meus dias idos, sem nem ter dado tempo de outro assunto velho cair na prateleira, lá vou eu falar de tema puído de tão gasto de novo: arrumação de papel. Porque junto com este pedacinho de papel que talvez garanta a faculdade dos meus filhinhos num futuro vindouro, estava toda a sorte de outros papéis, cards, como já sabem, fotos, cartões, cartas com juras de amizade eterna, e todas as outras coisas que o meu baú da recordação é capaz de aceitar. É uma experiência única poder ler cartas, simplesmente cartas, sem qualquer adjetivo, porque ninguém mais hoje escreve cartas a ninguém, e eu tive amizades que eram capazes de sustentar todo o CCT, mas nossas correspondências sempre dispensaram selo postal, pois eram todas entregues em mãos. Fabuloso pensar nisso, escrevíamos não para diminuir distâncias, mas sim para amenizar ausências que logo findariam. E, depois desses anos todos, é uma jornada de auto-conhecimento ler aquelas juras de amizade eterna que não durou muito além do colégio ou ainda ver que alguns dos autores que habitam no seu baú se modernizaram ao ponto de estarem no perfil de sua rede de relacionamentos.
Mas hoje, as coisas mudaram muito. Se meus papéis do passado eu posso espalhar pelo chão do meu quarto, as memórias de hoje são todas construídas num espaço virtual, em que há a necessidade de um aparato imenso e cada vez mais moderno para acessar. E, apesar de toda essa parafernália consumidora de energia, tudo isso, todo esse nosso microcosmos que construímos para lembrar quem somos e de onde viemos é frágil; apagar esses rastros, de forma definitiva, é simples e fácil demais.
Sentada hoje no chão do quarto, tendo todo esse passado entre os dedos, sinto pelas gerações futuras que nunca se encontrarão por acaso com suas histórias, nunca serão surpreendidas por uma maré de papéis que nunca se converterão em lixo. Admito que até tive a sensação de que já fui mais amada, mais querida, e mais amiga. Mas, talvez, seja só impressão.
Devolvendo tudo à antiga morada, esperando um próximo momento em que eu vá, por acaso, visitar lá de novo, comecei a organizar aquele mundinho, separando cartões num canto, por autores, papéis célebres em outro, bugingangas dum outro lado... e desisti. Vi que não dá para organizar uma gavete onde só há recordações, pois quando elas vêm, você é banhado, quase que rebatizado pelo que passou. E quando elas se vão, a água no rosto é real, e a limpeza na alma também.


Agradecimentos ao meu ilustrador favorito pela orientação.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Eterno tema

Cedo ou tarde, eu sempre termino falando sobre solidão aqui; tomando, de um jeito ou de outro, as palavras de outrem, ou até ficcionando eu mesma. Por mais que eu pense que solidão, hoje em dia, é algo cada vez mais inerente, cruel e absurdo, dado o tamanho da nossa população e as inúmeras e crescentes formas de comunicação, vira e mexe eu vejo coisas que lançam novas luzes sobre esse tema velho, mas nunca desatual ou esgotado. Esta semana revi Clube da Luta (1999), um filme que adoro, na sua forma, no seu conteúdo, no seu elenco (e quem mais me chama atenção são o Edward Norton, ator que, se não me falhe a memória, gostei da sua atuação desde a primeira vez que o vi, e Meat Loaf, ah, que adoro! E sim, Brad Pitt caiu na medida!)
É interessante ver como o Rupert (ou Cornelius, ou qualquer outro nome) lida com a solidão que é imposta a ele, vendo seus "amigos de porção única". Definitivamente, é para ser assistido várias vezes, até gravarmos mesmo que não somos aquilo que possuímos, e que não devemos permitir que essas coisas nos possuam.
É um filme que faz despertar algo de revolucionário em nós e que acho uma pena como eventualmente, os 500 canais de TV, os sofás de listras verdes, as camisas CK, os sapatos DK e as pulserinhas da Nike vão sufocar isso. Mas ainda que não consigamos desbaratar esta sociedade louca que nos prende, será que não podemos ser, ao menos, mais próximos, mais humanos, mais unidos?
Tenho uma amiga que diz que Deus fez com que o ser humano não conseguisse coçar as costas para que entendamos o valor da cooperação. E aí a China produz mãozinhas com cabos extensores e pontinhas afiadas feito unhas.
Não que seja culpa mesmo da China ou de qualquer outra república democrática que mata seus estudantes o fato de nos isolarmos. Fato é que eu sei lá o que acontece, cada vez sei menos.
Dá para dizer que os culpados são os iPods com seus fonezinhos confortáveis para cada um ouvir a sua música? Talvez desse para fazer esta declaração, caso não houvesse tantos carros com sons altíssimos, capazes de impor o gosto musical do proprietário até o sexto andar de um prédio qualquer. Esse lance de espaço alheio é uma furada!
Fato é que dividir só é legal quando impomos aquilo que nós gostamos. Do mesmo jeito que a China se intitula uma república democrática.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Ajuda real

Voltando a falar de Haiti, li uma coisa no Almanaque que copio aqui:

A dívida externa do Haiti é de quase US$ 1 bilhão. Se os países ricos estivessem mesmo interessados em reconstruir anação haitiana, poderiam muito bem começar cancelando essa dívida que tem suas raízes no racismo, na exploração e no colonialismo, como recorda Eduardo Galeano:

"A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém comprava do Haiti, ninguém vendia, ninguém reconhecia a nova nação. (…)
Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. A essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perda por haver cometido o delito da dignidade.
A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental."

Assine a petição: pelo cancelamento da dívida haitiana, e para que a reconstrução do país não aconteça à custa de dívidas ainda maiores.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Coleção tem limites

Apesar de ter gente que me considera entulheira, não, eu não sou. Não tenho dificuldade em jogar certas coisas fora, só em jogar aquilo que pode vir a ser útil; o mesmo se aplica a pessoas. Sendo assim, eu não sou muito de colecionar coisas, tenho apenas 3 coleções na minha vida, a mais magrinha é a de lápis decorados, daqueles com parangolés numa das pontas; a outra, bem numerosa, é de canecas, ela cresce com uma certa parcimônia, porque não há mais espaço dentro do armário da cozinha; e a última é de marcadores de livros, a única que me transforma numa gatuna voraz. Gosto de todos os tipos, desde aqueles mais comuns, impresso como material publicitário dos lançamentos das editoras até aqueles mais arrojados, magnéticos, com fotos de celebridades ou paisagens célebres. Às vezes entro em livrarias apenas para assaltar aquelas latinhas que ficam perto do caixa cheias deles, sem me importar com os olhares censuradores dos caixas, como quem pergunta se não vou comprar nada. Não, moça, não vou, eu vim aqui levar o que me interessa, na mão grande e não vou pagar nada por isso. Depois de tamanho ato de ousadia desses, eu só volto a ficar tranquila depois de cruzar porta afora da livraria andando com as minhas próprias pernas e ver que o sgurança da loja não me parou. E antes deste instante chegar, eu já fico fazendo todas as especulações possíveis na minha cabeça, como ser balançada pelos meus tornozelos de cabeça para baixo, enquanto o chão vai se cobrindo com as minhas preciosas tirinhas que dizem o que aquela editora acabou de lançar. Outra especulação muito comum também sou eu aparecendo no Jornal Nacional, algemada, gritando "eu sou uma prisioneira política! me mandem seus marcadores de livro!". Mas são apenas especulações, já falei.
Ontem, para a minha dupla alegria, estava eu em Ipanema, numa de suas livrarias mais famosas, comprando o meu tão aguardado, ansiado, procurado, namorado Neuromancer, de William Gibson. Para aqueles que adoram o universo cyberpunk de Matrix e Bladerunner, é uma excelente pedida. O livro foi relançado em uma edição comemorativa, com uma nova tradução, e ainda com dois contos inéditos do autor. Interessante como um livro de ficção científica, um estilo considerado menor na literatura, está na lista dos 100 melhores romances de língua inglesa segundo a revista Time.
Estava lá eu na fila do caixa, pululante, indo torná-lo meu definitivamente. Vi então aquela reluzente latinha deixada impune ao alcance de todos e fiquei ainda mais feliz, seria um dia de dupla alegria. Torcendo para que o cartão de crédito dos clientes à minha frente desse algum imprevisto, mesmo que pequeno, para que não ouvisse "próximo!" tão cedo, debrucei-me sobre o balcão e comecei a fazer a minha colheita. Vi um gracioso, onde se lia "EU ADORO LER!".
— Vem para a mamãe — disse a ele baixinho.
Juntei mais alguns na minha mão até que vi um onde se lia "Crepúsculo".
— Não, você fica.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

À luz das letras

Vendo a lua,
aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
mas de bailarinos, e de você e eu.

Eu lembro de quando estudava cultura clássica na faculdade, uma vez lemos um texto em que o autor, já exaurido em suas pesquisas, confessa que não pode fazer mais progressos porque a literatura da época é escassa naquele campo. Como se tratava de um curso de Letras, as moças (sim, minha turma só tinha mulher!) ficaram discutindo sobre isso por horas, bom, não mais do que duas, porque era o tempo da aula. Mas ficamos todas embevecidas com o fato de um historiador se dobrar ao valor e à contribuição da literatura como memória, tal como os gregos bem reconheceram nos seus tempos passados.
E isto me veio à cabeça porque esta semana, entregue eu à leitura de Gênesis e Mistérios Divinos, este de Neil Gaiman, fiquei eu pensando sobre Deus, Lúcifer, perdão e conhecimento, vendo que o criador de Sandman e Coraline se atreveu a contar aquilo que o antigos hebreus não disseram; pensando também no Judas que Kazantzakis revelou ao mundo. E penso que mais uma vez a literatura ajuda a lançar outras luzes a tempos que não são nossos, ainda que estes sejam primordiais.

L´invitation au Voyage


Um dos meus poemas favoritos nesta vida. Música de Henri Duparc sobre poesia de Charles Baudelaire.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Haiti Esperança

Que as 150 mil vítimas dos terremotos no Haiti me perdoem por falar isso, mas, ao que me parece, esta tragédia pode vir a ser a melhor coisa que já aconteceu àquele país. O Haiti leva a fama de país mais pobre fora do continente africano, e eu não sei o que há de mais triste neste título, se o fato de estar reduzido a tamanho estado de miséria ou se ao suposto fato de que pobreza tem origem. Esta semana, os astros e estrelas da maior indústria do entretenimento do mundo resolveram se reunir em outro lugar que não fosse uma premiação da Academia. Acho ótimo, muito válido mesmo, todo eles querendo chamar a atenção para o fato e tentando arrecadar dinheiro, até o Jack Nicholson deu uma de simpático e atendeu telefone. Eu não vou criticar as pessoas que só fizeram doações porque tinham a chance de falar com algum ator famoso, porque quando este dinheiro chegar onde tem que chegar, a intenção não vai fazer diferença nenhuma. Mas será que precisa chegar a esse ponto tão crítico, tão além do crítico, para que o mundo olhe, se apiede e estenda a mão? E eu, tão revolucionariazinha e crítica, também só fui capaz de botar o banner aqui no blog sob as mesmas condições.
Acho engraçada a condição humana, que precisa ser privada de tudo aquilo que tem para poder olhar para o lado e enxergar um irmão.
Um outro ponto que vale atenção aqui é a ministra Marie-Laurence Lassegue, mãe de 21 filhos, dos quais 20 são adotados. Ela montou o seu gabinete sob as árvores da Delegacia Legal de Porto Príncipe para que pudesse continuar o trabalho, e o fez hoje também, em pleno domingo.
Eu me pergunto se o povo brasileiro teria algum representando capaz de fazer o mesmo.

Gênesis, versão III milênio

Essa manhã me peguei pensando em Laranja Mecânica, filmaço!, lembrei daquela cena em que Alex DeLarge já se encontra na prisão, sentado, em pose de homem pacato, diante de uma mesa entregue à leitura. O padre ao seu lado lhe fala sobre como ele era um bom rapaz, que passava seus dias lendo a Bíblia enquanto seus companheiros se entregavam aos esportes ou qualquer outra coisa. E então vem à mente do sr. DeLarge as cenas bíblicas, de cidades pegando fogo, irmão matando irmão, mulheres sendo violentadas e traições. E ele via isso como algo bom.
Eu, então, anos depois e nenhuma passagem conhecida em presídio, entregue à minha leitura de Gênesis, de Robert Crumb, lançado no final do ano passado (que o Submarino demorou horrores para me entregar, inclusive), o primeiro livro bíblico transformado em graphic novel, pensei que hoje em dia o célebre não-herói do clássico de Kubrick ia se divertir muito mais.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Dias de, as manhãs


Era de manhã, entre o começo do burburinho dos pardais e o nascer do sol. Ritinha acordou, encolhida na lado direito da cama, como já havia se tornado costume. Sentiu a boca seca e tomou coragem para ir até a garrafa d´água em cima da cômoda ao lado da porta. Sentou-se sobre o colchão, e então seus olhos vasculharam à volta em busca de sua camisola. Foi quando viu o volume sob os lençóis latejando na cadência de uma respiração flúida que se deu conta de porquê havia dormido nua naquela noite. Sem mesmo que ela soubesse, a boca seca sorriu em surdina, dando espaço à sede de seus sentidos pelas formas e cheiros de seu marido. Olhou-o, bastante, percorreu os vincos e as curvas daquele corpo masculino, emagrecido pelo heroísmo da guerra, enquanto começava a ofegar para que aquela sensação lhes enchesse os pulmões.
Com uma mão tímida, descobriu-o levando o percal bordado até o nariz, querendo se lembrar daquele buquê de outros anos. Roçando as narinas, aquele perfume fez com que seus olhos gemessem, para logo em seguida se abrirem mais despertos e famintos, enquanto a outra mão, querendo domar a sua fome, tocou no peito serenado de Olavo. Permitiu-se só as pontas dos dedos, porque o sono de um bravo soldado vitorioso tinha que ser mantido, mas deslizou-as numa lascívia sem cansaço.
E num bote, uma mão segurou-lhe a sua, fazendo com que ela desse um pequeno salto de onde estava. Viu então os olhos do marido aberto, que, ao encontro dos seus, sorriu.
— D-desculpa, não queria te acordar. — repreendeu-se.
— Não tem problema, já que era você.
Ela sorriu toda para ele, e ele a puxou para perto, abraçando-a e tranquilizando-se no seu cheiro e no contato com o seu corpo. Ficaram mudos por um breve momento infinito, conversando através de suas respirações, que foi quebrado por um beijo atrás da orelha.
— Quer água? — ele perguntou sussurando enquanto andava sem roupas pelo quarto.
Ela, ébria de adimirá-lo, respondeu:
— Não, obrigada.
Sorvendo em largos goles, bebeu do copo enquanto observava o filho do padeiro cruzar a rua em suas calças curtas e sua bicicleta. Perguntou-se se aquela era a primeira vez que via o rapazinho andando. Mas este pensamento foi afastado quando notou ser observado.
Gostava de devorar o olhar de Ritinha, que lhe servia como um bálsamo às feridas que a guerra havia imprimido em seu espírito. De seus reluzentes olhos de jabuticaba emoldurados pela cascata negra que lhe escorria pelos ombros, algo lhe dizia que a guerra havia acabado, há um oceano e um mar de outras coisas de distância. E cada vez que ela lhe sorria, ou pedia-lhe para tomar parte em qualquer função doméstica, como untar as dobradiças com óleo ou simplesmente ver parte da farta produção de crochê que ela e sua irmã haviam feito, ele se sentia ainda mais a salvo. Sentia que demoraria muito até ser capaz de responder às perguntas daquelas duas mulheres que lhes eram a nação pela qual lutou e para a qual voltou; naquela casa não cabiam assuntos de guerra ou horrores da batalha. Ali, tudo era luxo, calma e beleza.
Sorriu mais uma das inúmeras vezes naquela manhã e voltou para a cama, em passos lentos, carregando sobre suas bravas pernas toda a insustentável leveza de seu ser.
E foi, mais uma vez, completo e único, junto com Ritinha.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Torture Week

Se eu só tivesse uma semana de vida, eu a gastaria em alguma féchion uíqui dessas por aí, porque assim pareceria que são mil anos e não apenas 7 dias. Eu lembro da época em que tinha TV, como alguns dos canais de gente-culta faziam parecer como se não houvesse mais nada acontecendo no globo, só um bando de gente anoréxica vestindo uns panos que ninguém entende o que quer dizer andando como se realmente fossem a algum lugar, e outros bons punhados de gente observando aquilo como se entendessem tudo, mal conseguindo disfarçar que só vão para lá para aparecer mesmo. Fora que se auto-denominam fechionistas, argh!
E aí, para encher a grade de programação, fazem cobertura ao vivo com os comentários de gente que se perde até para comprar uma calça jeans. De dentro do estúdio, você ouve as melhores coisas para enriquecer aquela cena:
— Eu gostei das cores.
— É, as cores.
— Também esse fuzô que ele poe por debaixo da roupa, acho legal, superusável nas ruas. (A mulher vê 15 modelos passando até achar alguma coisa que caiba nesta categoria, superusável, mesmo que se trate de um coque banana).
— É, esse fuzô.
Aí vai a moça feinha com um corte de cabelo que deu errado e pergunta para o estilista badaladão:
— Em que você se inspirou para fazer essa coleção?
Ao invés dele falar que foi indo à feira na rua com uma ressaca monstro e os óculos de grau sujos roubados da vó, ele diz:
— Ai (sempre começam com um "ai"), lembra daquela vez que a gente se viu em Amsterdã dois dias depois daquela suuuuper festa badaladaaaaça em Paris? (Eles também adooooram prolongar vogais).
— Ai, lembro, lóóógico. Festão!
— Pois é, aí eu encontrei com a Carminha Borges naquela mesma semana e ela tava voltando de umas compras que ela foi fazer para o chateau dela em Provence. Aí ela me pediu umas opiniões e eu lembrei daquilo que você me disse sobre tons mostarda. E aí foi só compor a coleção. — Aí ele manda essa mostrando uma modelo com um penacho na cabeça feito de penas de faisão roubadas da lixeira de um restaurante e arrematado com muito laquê, e toda vestido de preto.
Tem também os papos de modelo:
— Foi quando eu tava em Nova Iórque com a Fê, a Má, a Ju, a Ju Lopes, a Mã e a Tá.
E mostram um hall de mulheres cuja mais gorda veste manequim 36, que só porque a câmera passou nos bastidores, elas tentam esboçar um sorriso, mas a fome não deixa. E ainda fica a mesma mocinha de corte de cabelo que deu errado dizendo que a vara-pau é linda-de-morrer.
Eu não sei se sou eu mas para mim essas coisas não passam de papo de cocota no chá das cinco.
Mas se tudo isso fosse pouco, tem a opinião valiosíssima das pessoas das ruas, sobre algo bem crucial na nossa vida política-sócio-cultural-econômica, como por exemplo, lencinhos de bolinhas amarrados no pescoço. Todo mundo fala o que acha, crucifica, diz que deveriam ser queimados, até aparecer a Glorinha Khalil e falar que é válido, lindo, chic, e superusável. Então pronto, pode mandar fabricar os lencinhos de bolinha para amarrar no pescoço e cobrar R$ 70,00.
Sério, tem certeza de que são só 7 dias?

Amigos da onça

Quem me conhece sabe o quanto gosto de animais. E quem me conhece sabe que, mesmo se eu não gostasse tanto de animais, eu sou terminantemente contra fazer maldades contra bicho,é algo da minha natureza. Engraçado que eu penso que isto deveria ser algo da natureza de qualquer pessoa que tenha um discurso pró-animais, fazer o bem; e eu vejo que não. Há um tempo atrás, quiseram aprovar uma lei aqui no Rio que determinava que animais não poderiam trabalhar mais do que 8 horas. Deixa eu pensar, suponhamos que eu seja um catador de papel. Meu burrinho puxador de carroça tem horário, eu não. Se eu quiser trabalhar além disso, problema meu que sou workaholic. E antes que me critiquem, eu sou super contra exploração, mas sendo ela de qualquer tipo, contra qualquer criatura.
Eu lembro uma vez, conversando com uma vizinha, que só sabe falar de bicho, adorar bicho, mimar bicho e perguntar de ração; nós falávamos de um projeto que tinham de construir uma escola pública dentro do nosso condomínio. Fomos contra, uns reclamaram, mas ninguém fez um reclamação como ela:
— Imagina agora, você vai pegar o terreno, fazer uma escola, para essa paraibada vir aqui estudar?
Engraçado, se fossem de quatro patas, ela iria adorar!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dias de, o retorno.

Quando a notícia do final da guerra chegou, a alegria não foi completa. Havia mais de dois meses que não tinham a menor notícia de Olavo. Se o peso dos dias de uma guerra infinita já era insustentável, o manto negro desceu por completo sobre os olhos de Ritinha, a esposa, e Wilma, a irmã, quando foram visitar Túlio, que havia voltado para casa devido a um ferimento em combate.
Entre um gole no cafezinho fresco e uma cavaca com goiabada, ele contou o pouco que sabiam do ocorrido.
— Os alemães descobriram um dos postos de comunicação. Os feridos pela granada foram executados no próprio local; os que estavam sãos foram levados como prisioneiros. E daí imaginamos que a caminhada não tenha sido leve. Mas a esta altura, é muito provavel que todos tenham sido torturados até a morte em busca de informações. — Foi então que deu-se conta de que não conversava com um dos oficiais, treinado para este tipo de situação. Eram mulheres, civís, a família do bravo soldado. — Sinto muito.
Com um contido aceno de cabeça, Ritinha levantou-se após apoiar a xícara vazia na mesa ao lado e saiu, sem dar uma palavra. Vilma, por sua vez, apenas foi capaz de olhar nos olhos de seu mensageiro com uma melancolia cortante antes de seguir a cunhada.
Andaram pela rua, uma apoiada nos braços da outra, sem se dar conta das crianças jogando bola na rua ou dos entregadores que passavam em sua bicicleta.
Com a guerra já finda, toda a felicidade e excitação das pessoas não cruzava os pequeno gramado frente à sua casa. Imersas naquela dor foi que descobriram o valor de alguns com quem sempre conviveram. D. Arlete, vizinha da casa à esquerda, toda semana batia à porta das duas para buscar as peças de tricot e crochet que faziam para vender no bazar da igreja, afinal, ela sabia que agora a situação ficaria mais apertada e toda ajuda seria necessária; também não deixava as crianças brincarem de pelotão marchando sob a janela do herói de guerra. E as crianças foram gentis o suficiente para fazê-lo na rua de trás.
Quando souberam da data de retorno dos soldados, a produção dobrou. À noite, quando tudo ficava em silêncio após a transmissão do Repórter Esso, era possível escutar o bater das agulhas frenéticas, e este som se arrastava madrugada adentro. E no dia marcado, não foram ao porto receber os soldados, ficaram em casa, num ato quase monástico, sem dar um pio, sem passar um café, apenas com o som ensurdecedor das agulhas trabalhando. Até que, quase como uma vidraça que se quebra, saltaram de suas poltronas com o bater na porta.
Vilma só se levantou após ter terminado aquela carreira, a última daquela blusa, sem deixar faltar o nó final. Dobrou uma vez o trabalho recém terminado, apoiou no braço no móvel e então pôs-se de pé batendo os fiapos remanescentes em sua roupa. Abriu a porta como quem recebia um intruso, até que levantou os olhos e descobriu que era possível ficar mais em silêncio do que já havia ficado o dia inteiro.
Ritinha olhou por cima dos ombros, irritando-se com aquele intruso que atrapalhava aquela tarde. Levantou-se, incomodada demais para prestar atenção nos fiapos remanescentes em sua roupa e parou ao lado da cunhada, compartilhado o silêncio ainda mais arrebatador.
— Ah, então é aí que as duas estão! Procurei por todo o porto, até subi no poste para tentar achá-las. Lógico que não achei, estavam aqui!
Não houve resposta.
— Não vão dar um abraço em mim? Seria bom.
Como feito por um corpo de balé, as duas levaram a mão direita à boca escancarada, e parece que só depois disso voltaram a respirar.
— Olha, eu sei que fiquei muito tempo longe, mas vocês ainda lembram de mim, né? Eu sei que já passaram alguns anos, mas não posso ter mudado tanto.
Vilma deu um passo atrás, não por medo ou repulsa, mas para procurar uma visão melhor daquela figura. Talvez isto a ajudasse a crer em seus olhos.
— Meninas, sou eu, o mesmo cara da foto em cima da cristaleira. Estou vivo, não sou um fantasma.
Parece que esta declaração surtiu algum efeito, porque Vilma então sorriu até desembocar numa gargalhada de felicidade histérica, e Ritinha se lançou naqueles braços fardados, numa ânsia de querer crer que aquilo era verdade. Era seu marido vivo que batera em sua porta.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

No calor tórrido,
as gotas de chuva de verão
despertam perfumes alegres.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Mistérios da fonte

Talvez as pessoas não saibam, mas o maior fornecedor de matéria prima para os apliques de cabelo que celebridades e a Geisy Arruda fazem é a Índia. Finas ironias da vida, os indianos que ficam carecas não recebem um centavo por isso, porque é de praxe da religião de boa parte da população daquele país (soou tão jornalísitco isso!)pediodicamente raspar os cabelos num ato sagrado de desapego. Os centros hindus juntam aquela cabeleira toda e exportam para o primeiro mundo a preço de ouro, dada a qualidade do produto.
Fui ao salão outro dia para cortar o cabelo. Repaginar o leiáuti é sempre legal, mas o problema é que saio de lá feito o Tony Ramos, cheia de cabelo nas costas e no peito.
Mas lá, sentada, depois de terem abençoadamente lavado meu cabelo com água gelada, eu estava sentada esperando meu fiel cabeleireiro vir fazer seu show e vi um cartaz que me incomodou:
IMPLANTE DE CÍCLIOS, 100% HUMANOS.
Ok, cabelo a gente sabe de onde vem e porquê. Mas... cílios? Quem fornece isso? Nem emo tem coragem de encarar a pinça assim!