sexta-feira, novembro 29, 2013

Na ventura, e na desgraça

Esse negócio de rede social tem umas coisas curiosas, uns mecanismos engraçados. A gente têm todos os amigos a dois cliques de distância e isso faz parecer que eles estão na nossa vida de verdade, ou que estão próximos. Vemos quando eles vão à praia, ficamos ligados das reclamações sobre trânsito, compras de natal e serviços de TV por assinatura, vemos qual foi o lugar legal onde jantaram e pensamos que eles estão de fato por perto. E o pior é que compramos essa mentira. Acessamos todos os dias aquele portalzeco, vagamos pela timeline, curtimos, bufamos, ignoramos, compartilhamos e cremos mesmo que "acompanhamos" as pessoas. A tragédia cotidiana é essa que nos faz mover uma engrenagem imensa sem nem ao menos sabermos para quê ou para onde, fazendo com que esqueçamos de sentar no chão por 10 minutos ao dia para receber uma lambida com um abanar sincero de cauda do nosso cachorro; passamos meses sem rirmos até doer entre bons amigos, sem olhar nos olhos daqueles que se sentam à mesa com a gente, sem dar um mergulho, seja no mar, numa história ou numa aventura nova. Achamos que teremos sempre tempo no futuro para aquilo que não consideramos urgente agora. Urgência e importância se subvertem, e assim as pessoas que acompanhamos se transformam na parede com porta-retratos, tão presente em nossas vidas quanto a viagem à Europa há 15 anos. Hoje estou revoltada com isso. Acreditar nesta falácia me custou caro. Soube que um amigo faleceu recentemente. Fomos colegas na faculdade de Letras, ele era ator e dava aula para crianças, e seus olhos sempre brihavam quando falava de seus alunos. Era um cara esforçado, inteligente e alegre, apesar de tanta coisa ruim que aconteceu na sua vida. Há uns meses, ele me veio à memória, bateram saudades, quis revê-lo, saber como estava, mas eu adiei escrever, ligar, chamar para sair.
A notícia me entristeceu, não só pelo óbvio, mas porque havia dentro de mim um desejo muito forte de que ele fosse feliz, como quem respira fundo e tranqüilo, e não como alguém que cerra os punhos para mostrar ao mundo que não tem medo. Mesmo sabendo que a vida não tem respeito por qualquer axioma, eu queria que ele demonstrasse aquela regra que gostamos de pensar que existe de que a felicidade e o sucesso são conquistados com sofrimento e pesares. E confesso que no momento, esse é o tipo de coisa que eu tenho pra jogar na cara da dona Sorte, com o dedo em riste, para que ela ouvisse poucas e boas; ela tinha essa dívida com ele, e não, não é decente não honrá-la.
E aí, na minha vez de ouvir as broncas de cabeça baixa, eu não devia acreditar nas mentiras enlatadas que ninguém conta mas que todo mundo compra. Esta falácia me levou embora a chance de cumprir meu papel de amiga, de estar ao lado dele, de reconfortá-lo, de ratificar o que havia lhe dito da outra vez em que fui visitá-lo no hospital anos atrás. E se eu não ratifiquei, não cumpri com o que disse, eu não estava lá.
Depois de quase 1 mês de tratamento intensivo, ele acata a força dos fatos e sai de cena. Causa mortis: insuficiência cardíaca. O órgão havia inchado demais e não conseguia mais bater. Olhando para a pessoa que era, penso que não havia outro jeito dele sair desta vida senão com o coração grande demais. Descanse em paz, meu amigo.

Como sucede à nau no mar, sucede 
Aos homens na ventura, e na desgraça 
Basta ao feliz não ter total demência 
Mas quem de venturoso a triste passa 
Deve entregar o leme do discurso 
Nas mãos da sã prudência.    

Todo o Céu se cobriu, os raios chovem 
E esta alma, em tanta pena consternada 
Nem sabe aonde possa achar conforto 
Ah! não, não tardes, vem, Marília amada, 
Toma o leme da nau, mareia o pano 
Vai-a salvar no porto.   
(Marília de Dirceu, Parte II, Lira V, Tomás Antônio Gonzaga)

Um comentário:

Jose Torres disse...

Um coração grande abarca mais o mundo e... cansa-se.
Foi o que me aconteceu. Felizmente ainda continuo cá por cima da terra.
Cumprimentos.