segunda-feira, outubro 27, 2008

Entre o silêncio e o buraco

Quando perdeu seu trabalho como estoquista ficou arrasado. Chegar em casa, fitar a namorada e o filho que tinha conseguido na adolescência foi tão difícil que pensou, antes mesmo de colocar a chave na fechadura, em dar meia volta e nunca mais aparecer. O que o dissuadiu fora seu amor aos dois, além da sensação de que não tinha lugar algum para ir; também já estava quase na hora do jogo.
Os primeiros dias de desemprego o sufocaram, fazendo círculos em classificados, vigiando o leite para que não caísse no fogão ao ferver e assistindo à Ana Maria Braga. Como nada apareceu para tirá-lo dali, decidiu ir com as próprias pernas. Entrou em um ramo suado e saturado: vender balas em ônibus.
Nos primeiros dias não conseguia nada além de uns poucos trocados que não compensavam a sola de sapato gasta, por melhor que fosse a sua conversa, por mais que não faltasse clichê algum. Por mais que o rugido do ônibus fosse feroz:
—RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
—Boa noite, senhores passageiros. Desculpa estar interrompendo o silêncio da sua viagem... — berrava ele alto para se fazer escutar.
Mas suas vendas eram insuficientes, sempre voltava para casa com o seu gancho ainda cheio de pequenas porções separadinhas.
Foi então que um dia, passando pela Av. Brasil, no meio do seu discurso, o ônibus passou por um buraco um pouco maior do que estava acostumado. E isso alterou para sempre seu modo de vender.
— Ninguém vai querer? Tenho bala de — [BURACO] — iorgute.
Antes que pudesse pensar em se corrigir, viu alguma boas mãos levantadas, requisitando suas guloseimas. Quando percebeu que ainda havia mais passageiros querendo da mercadoria que havia acabado, não se deu por rogado e ofereceu das outras.
— Bala de murango de iorgute acabô, mas ainda tem jujuba de iorgute, bala de minduim, ráus, taidrent...
E assim passou a fazer seus anúncios, e com o tempo consegui até a clientes regulares, que só compravam na sua mão.
Nunca trabalhou com algumas marcas, por mais que houvesse outros camelôs que vendessem, pela simples incapacidade de inventar novos erros.
Vez ou outra, também, escorregava e falava os nomes corretos dos produtos, mas aí corria para errar o plural e ficava tudo certo.

2 comentários:

Justo disse...

É isto...
Parabéns...

xistosa - (josé torres) disse...

Quanto não vale um buraco!!!

Tenho estado em letargia.
Nem de saúde, nem doente ... com dor de cabeça que me acompanha há mais de 40 anos.
É cíclico.
Os médicos dizem que estou bom. Não tenho nada!!!
Eu estou louco, tenho dor de cabeça e estou bom.

Vou aprender a voar.
Vou a Manchester puxar as orelhas ao meu filho, ou dar-lhe um tapa.
Cumprimentos.