sexta-feira, novembro 21, 2008

Entrando no espírito natalino - parte I

De todas as figuras do imaginário coletivo, Papai Noel não é a minha favorita. Isso não tem nada a ver com nenhum trauma infantil, mas não me ligo em Natal. Nessa época do ano, a única luz que deixo piscando na minha casa é a do abajur perto da porta, mas isso porque ele está com mau contato e penso em consertá-lo como resolução de 2009, já que mais de 5 anos de mau funcionamento dão azar.
Mas este ano, minha relação com o bom velhinho passou a outro nível: aversão. Cada vez que vejo roupas e gorro vermelhos, sinto um leve grau de enervação, mesmo que seja bem inferior ao que sinto quando o vejo o Faustão na TV.
E isso tem motivo, é bem claro. Aconteceu há algumas semanas, quando fui cantar num grande shopping do Rio para abrir as comemorações natalinas (não informo o nome do estabelecimento, eles não me pagaram para fazer propaganda, só para cantar). O evento foi super-produção, coro, malabaristas e um ator vestido de Tom Sawyer com um microfone à la Madonna. Tudo isso em meio a uma decoração faraônica e cafonérrima. Eu vi um par de bonecos de neve dançando em fraque vermelho, e nem eram um casal!
Depois de ficar um bom tempo, suando debaixo dos nossos uniformes, esperando o circo começar, eis que o sujeito barbado com calças curtas e meia até o joelho entra no cenário dando uma estrela torta, arregalando os olhos e os braços e olhando tudo à sua volta com cara de garoto-propaganda das Casas Bahia. Começamos mal. Antes mesmo das crianças começarem as bater palmas puxadas pelas Paquitas com símbolo do shopping no peito, já estávamos desconfortáveis vendo aquilo tudo.
Então começaram os malabaristas a voar e descer pelo tecido acrobático, fizeram muito bem, mas foi coisa que perdi, porque estava com um olho na partitura e outro na regente, me perguntando se alguém ali prestava atenção no que cantávamos.
Breve pausa. A regente baixa as mãos, os acrobatas param um pouco. E ela nos informa que teríamos que cantar outras música que já haviam sido limadas do programa. Tensão no ar. Não era necessário anos de experiência em eventos natalinos nem um Q.I. muito maior do que o número das Havaianas para saber que algo de errado aconteceu e teríamos que embromar. O problema não é embromar, qualquer um que já concluiu o Ensino Médio sabe como fazer isso. O problema é que não tínhamos a menor noção por quanto tempo teríamos que fazer isso, e uma hora, cedo ou tarde, a música acaba. Para criar uma margem de segurança, repetimos um dos refrões 6 vezes mais do que o autor desejava. Sorte que ninguém estava ouvindo mesmo o que a gente cantava.
Eis então que chega o momento mágico, em que o Papai Noel desceu pelo elevador panorâmico, sob uma capa de veludo. E nós entoávamos:

Já faz tempo que pedi,
mas o meu Papai Noel não vem.

Com certeza já morreu ou
então felicidade é brinquedo que não tem.


Eu até consegui segurar a crise de riso que me subiu do dedão do pé nessa hora, até porque, ninguém estava ouvindo mesmo a gente.

2 comentários:

Criptor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Beluga disse...

Malditos Papais Noéles Canibales!!!