domingo, maio 03, 2009

Seleção difícil

Rio de Janeiro é um aeroporto de meteoritos, alguns devem saber. Verdadeiras crateras se abrem no asfalto do dia para a noite. Muitas vezes não recebemos viagens solos, viajam em bandos, resultando em chuvas que tornam impossível andar em linha reta ou passar por trechos sem pegar ao menos um buraquinho nas vias.
Sendo assim, além desta alcunha que seria turística caso houvesse tripulação nos corpos celestes, nossas ruas têm outra função: a maior mixadora que qualquer artista que já tenha tido o prazer de registrar a sua obra para a posteridade. Não interessa se nacional ou internacional, vivo ou morto, contemporâneo ou renascentista. E como critério de seleção não há, tampouco há coerência no que se produz. Pode-se deixar uma cantora de ópera gaga bem no seu principal agudo, como pode-se editar letras inteiras e fazer o Chico Buarque cantar "beijou sua mulher como se fosse flácida".
Como um meio de contornar essas releituras dos clássicos, convém então encontrar alguma estação de rádio que seja do agrado. Sendo assim, salvo alguns túneis e algumas regiões de sombra por montanhas ou pedras, não espera-se grandes surpresas; nada que se torne um incômodo, basta pensar no privilégio da topografia da nossa cidade e pronto.
Mas tampouco é uma solução simples. Recentemente, ao encarar essa missão, terminei gravando algumas das rádios que eu sempre critiquei minha mãe por ouvir. Dei sorte por meu carro não se mover verticalmente, caso contrário eu o confundiria com um elevador dada a trilha sonora. E antes de reclamar muito, bufei resignada, e percebi no que se baseou o critério da minha seleção. Não foi necessariamente do que eu gostava ou não de ouvir, e sim o que eu aceitava, simplesmente. Triste hoje que não podemos mais escolher a rádio do nosso estilo favorito (pelo menos eu tenho ojeriza a axé, pagode e ao fânqui; de funk eu gosto muito, James Brown e seus companheiros). Mais, minha orientação religiosa tampouco pode pesar neste momento. Não porque eu não esteja receptiva aos ensinamentos evangélicos, mas é que por puro preconceito meu, não dou audiência para locutor de língua presa.

2 comentários:

Anônimo disse...

Um beijo para vc, Marilinha!
E direito de Uberaba, heim?
;)

Criptor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.