quinta-feira, janeiro 06, 2011

Sobre beijos e idéias

Esta manhã encontrei um beija-flor morto sob a minha janela. Não sei dizer quando foi, passei fora pelas festas, mas não parece ser de ontem. Assim que vi, não gostei. O fato de ter uma carcaça dentro da minha casa me incomoda menos do que o fato dela ser de um beija-flor. Tenho essa coisa por pássaros, sabem? Gosto de animais em geral, fato público, mas tenho pelas aves uma ligação especial. Criei canários quando era bem criança, e, quando perdi o primeiro, só consegui superar na adolescência. Mas acredito também que minha admiração por essas criaturas seja alimentada, em boa parte, por uma certa dose de inveja; elas fazem duas das coisas que acho mais lindas e mágicas: cantam e voam.
Pois é, tem um pássaro morto. E ainda por cima é um beija-flor. Não importa onde estejamos, sempre que passa um deles a gente pára para admirar, eles passam rápidos, fugazes e etéreos, bebendo néctar, como a mitologia gosta de contar dos deuses olímpicos. E ainda ficamos admirando-os, mesmo depois, quando não estão mais lá.
Mas vocês já olharam bem para um desses de perto? Há alguns anos, quando eu e meu pai acordamos pela manhã, havia dois na cozinha. Eles haviam entrado e não conseguiam sair. Quando abri a porta, um se apressou e passou por mim, dando um rasante na minha cabeça, saindo pela janela aberta, enquanto o outro permanecia desesperado voando contra o vidro. Com o peito cheio de dó, eu fui lá para salvá-lo, muita dó e jeito. Porque um pássaro você não agarra como oportunidade, pelos cabelos; você tem que fazer isso com muito cuidado, senão vai quebrar suas asas. Então fechei-o entre as minhas duas mãos em concha, e ele ainda se debateu por um tempo, mas não muito. E enquanto me dirigia para uma abertura onde pudesse soltá-lo, eu me encontrei com aqueles pequenos olhos negros, e foi aí cristalizei por uns três segundos. Aquele bicho era tão perfeito que não parecia real, era como capturar uma idéia. Aquela penugem dele tão fina e delicada, com aquelas cores encantadas que mudam conforme a luz e o movimento, aquele corpo tão minúsculo que minha mão engoliria se quisesse — mas não é capaz — , e pairam no ar, não voam; é puro, cristalino; não, não se parece com nada. E antes mesmo que eu abrisse minhas mãos para soltá-lo, ele se libertou e encontrou seu caminho sozinho. Mas eu fiquei com a sensação dele comigo, fiquei lá, naturalmente, admirando-o mesmo que ele não estivesse mais lá. O resto do dia foi sustenido.
Então quando vi aquele outro, com um destino mais triste, sob a minha janela, fiquei me perguntando quanto tempo ele não se debateu contra o vidro até que suas forças o deixassem. E belas idéias não têm que ter este fim. A primeira vez que tentei recolhê-lo, não consegui. Tive que parar, fiquei sentada na cama acolhida com braços e ouvidos doces, emocionada. Nas minhas próprias palavras, acho que ainda não cresci mesmo. Mas entre uma linha e outra desta postagem, peguei aquele corpinho sem vida e enterrei no jardim, onde era o lugar dele.

2 comentários:

ALL STAR disse...

SAUDAÇÕES À QUERIDA KATH. O VELHO MUNIZ ALL STAR VOLTOU A LER E A ESCREVER, TUDO POR CULPA DO MEU FILHOTE DE 10 ANOS.
ZUMBI ME FALOU DO REENCONTRO ESSES DIAS...RSRS...ESTOU COM SAUDADES DA MINHA AMIGA.
QUANTO AO BEIJA-FLOR: UMA VIDA BELA, VIBRANTE, ENCANTADORA E.... CURTA. É DAQUELA LINHA DE GRANDES FIGURAS, COM UMA LUZ ESPECIAL, TALVEZ, QUE NÃO FICAM MUITO TEMPO ENTRE NÓS. EGOÍSMO DAS DIVINDADES.
UM ABRAÇO FRATERNO PARA MINHA QUERIDA AMIGA.

Blog de Carlos Reis disse...

Nós soms apenas formas que assumem uma identidade, em constante atualização. No momento em que deixamos esta forma que nos identifica, nós retornamos o indiferenciado. Assim, passamos a estar presentes em tudo eternamente. O mais importante é o efeito que fizemos enquanto patentes no mundo, sobre os corações à nossa volta. Creio que esse pássaro é parte de você agora. Você poderá sempre vê-lo voar nos seus sonhos. Cuide dele com carinho!

"Quod est inferius est sicut quod est superius, et quod est superius est sicut quod est inferius, ad perpetranda miracula rei unius." (parte da Tabula Smaragdina - Hermes Trimegisto [Toth])