sábado, janeiro 28, 2012

Ainda apelando

Continuando a caçada, ao perguntar sobre a faxineira de um conhecido, ele me passou o telefone "de uma que é muito boa, inclusive, chega cedo, minha casa vive um brinco". Fui lá ligar para moça:
— Alôr! — o R ao final da palavra indica tom agressivo.
— Boa noite. Posso falar com a Lizete?
— Que ér?
— Kath.
— Kath da onde?
Adianta eu dizer a maternidade onde nasci, o colégio no qual estudei, a faculdade que concluí ou a praça onde alimento pombo?
— Kath lá da minha casa.
— Ladami nhacasa? — a pessoas descendente das hordas vikings se perguntou pensativa do outro lado da linha. — Não to lembrando.
Eu devia ter dito "não é pra lembrar, é pra captar o sarcamo".
— E a Lizete, se encontra?
— Sou eur.
— Oi, boa noite, você não me conhece, meu nome é Kath, quem me deu seu telefone foi o Eduardo, eu estou precisando de faxineira.
— Ahnr?
"Ahnr?", não gente! Se alguém me diz que tá precisando de blogueira, eu entrego meu cartão na hora e ainda digo que tenho vasta experiência em escrever textos que no futuro serão celebrados nos salões virtuais de leitura.
— Ahn é isso. Desculpa, você por acaso é faxineira?
— Sim. Foi que Eduardo, marido da Paula?
— Não conheci a esposa dele, não sei te informar.
— Ah, sim, ele mesmo, é o único Eduardo que conheço.
A essa altura eu já tinha perdido as contas de quantas vezes eu devia ter feito a ligação cair.
— Faz o seguinte. Liga para ele amnhã e passa seu endereço. Agora eu cheguei do serviço e to cansada para anotar.
Pedir faxina ficou mais simples do que pizza. Eu fiquei revendo tudo na minha cabeça, "faxineira", "muito boa", "Lizete", porque só podia haver alguma mensagem truncada no meio disso tudo. Afinal, as peças não se encaixavam. Se uma caneta é algo pesado demais para ser manejado, o que esperar de uma vassoura? Ignorando solene e zenbudistamente o que a pessoa tinha dito, eu prossegui:
— Então, Lizete, eu queria saber quais seus dias na semana, quanto você cobra.
— Eu tenho duas segundas e quintas. — Fantástico, ela também ignorou o que ela mesma tinha dito.
— Ahn? Segundas e quintas?
—  Não, segundas só duas, quintas todas.
Natural que sua agenda não seria fácil. A essa altura, o meu próprio telefone estava cansado da situação e fez a ligação cair. Eu olhei para ele, pensei em apertar o botão de discagem de novo e retomar a conversa. Mas o futuro senhor Kath, que tinha testemunhado as minhas reações fez coro junto com o telefone e me fez aceitar o fato de que estava difícil demais.
—Acho que vou ligar, só pra dizer que desisti.
Mas aí tive medo de ela me mandar ligar para o Eduardo no dia seguinte porque ela tava muito cansada para receber uma desistência. Eu acredito mesmo que o marido da Paula tenha sido honesto, que a Lizete é ótima e trabalha bem. Mas, fato comprovado, elas sabem, sentem o cheiro do seu medo e do arroz à grega da última confraternização da firma. Não querem ser testadas, levadas ao limite, transformar faxina em treinamento de fuzileiro naval.
Fiquei em silêncio, repassando mentalmente o plano de sequestrar convidar uma faxineira a entrar no carro por livre espontânea pressão. O futuro senhor Kath é uma pessoa do bem, opta sempre pela paz e gentileza. Sugeriu então pedirmos o carro de um amigo dele que tinha o banco de trás espaçoso e confortável, assim não causaríamos lesões naquela que nos salvaria do projeto de ciências que está virando nossa casa. Sim, ele é da paz, mas também tem sangue nas veias, fazer o quê?


Um comentário:

xistosa - (josé torres) disse...

Talvez a faxina saia cara, mas garanto que os livros ficam na ordem.
Só quero transporte (navio, pois claro!), alimentação e alguns reais que sejam verdadeiros.
Também aceito euros, libras ou dólares.
O preço???
Uma agradável surpresa.
Faz tempo que não vinha a esta casa.
Tenho um coração que se apaixona facilmente e agora apaixonou-se por umas arritmias.
Parece que estou curado.
Para que serve termos coração???
Um bom domingo, "Senhora Kath"