domingo, maio 11, 2008

A nevasca traz novos ares

O tempo passa, o tempo voa, e já é dia das mães de novo. Se se lembram do ano passado, eu passei de uma maneira melhor. Como os fatores continuam operando seus milagres, eu escolhi esse ano não reclamar, não ficar lambendo ferida nem me lamentando. Avanço considerável, penso eu.
E ontem, conversando com ele mesmo, lembrei de um dos pontos mais felizes da convivência com a minha mãe. Entre muitos erros e atritos, ela teve acertos maravilhosos. Foi ela que me levava às exposições de pintura em porcelana e me fazia perceber as nuances das obras. Desde cedo, eu e meu irmão assistimos filmes como dos irmãos Marx, Jacques Tati e Kurosawa. E foi assistindo a Sonhos que penso que ela definiu toda a minha percepção de arte; eu não tinha nem 10 anos. Em uma das várias histórias que compõem essa obra-prima, havia "The Blizzard", em que 4 homens subindo uma montanha nevada são surpreendidos por uma nevasca. Lembro de quando a cena começa, as 4 figuras imersas na brancura agreste, só com o vento cortante e o ruído de suas insustentáveis respirações, sem dizer uma só palavra. E assim permanece por mais de 5 minutos. Meu irmão logo começou:
— Fala alguma coisa. — Pausa. — Tá silêncio, fala alguma coisa!
Aí até eu me influenciei:
— Não vão falar nada?
E minha mãe, tão compenetrada diante da TV, redarguiu severamente:
— Se eles não falam nada há um motivo. Vocês deveriam tentar entender porque eles estão em silêncio.
Naquele momento eu me calei, e pela primeira vez me dei conta de que o falar altera sua respiração e pulso, gasta mais ar do que a quietude. Como o silêncio e a conversa, cada um a sua maneira, possuem a sua própria insustentável leveza. Pode não ser o único, mas a arte está herculeamente baseada neste pilar.
Por fim, uma das pessoas que mais admiro e a quem sou grata nesta vida me enviou hoje uma mensagem, e dela eu compartilho o trecho final:

Mãe pode ser a avó,
a tia ou uma irmã,
pode ser até o pai,
pois é a figura que assume a maternidade,
ainda que de outra barriga,
e recebendo de Deus o bastão,
leva adiante a tocha sagrada do amor,
pois ser mãe é esquecer um pouco de si mesma,
para se tornar inesquecível na vida de outra pessoa:você!

3 comentários:

Justo disse...

Menina...
Você é a própria essência da leveza humana.
Obrigado por ter esta alma e compartilhar.
Tens um dom.
O de comover.
Beijos..

Criptor disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
xistosa disse...

Os homens não choram ...mas lêem.
Não sei se li ...

Obrigada por este momento.