domingo, janeiro 18, 2009

Arrependimento

No ano em que entrei para da faculdade de Letras, eu ainda estudava Polonês e participava de um coro que estava preparando um concerto de 2 horas. Logo de cara, peguei Lingüística, e a minha professora tinha nascido para ser astronauta, de tão inteligente. Resultado: eu vivia carregando papel.
No final de um dia, estava eu no ponto de ônibus, esperando o primeiro de dois ônibus para chegar até em casa. Perguntei ao ambulante se ele tinha bala chambinho, era uma de iogurte de morango em forma de coração. Ele me deu o saquinho, eu dei a ele o dinheiro, e em seguida escutei de um outro vendedor:
— Pronto, agora você tem R$ 14,50 para levar para casa.
Falaram mais algumas coisas que os motores a diesel dos ônibus não deixaram ouvir, mas então eu ouço:
— A gente tinha que estar igual àquelas duas ali, ó — disse apontando para mim e outra moça ao meu lado. — estudando. — A pilha de livros nos nossos colos não deixava mentir.
Sorri.
— Você estuda pra caramba, né? — ele me perguntou.
— Bastante. Devia estudar menos só para preservar minha coluna.
Ele riu e contou a sua história.
— Sabe, eu gosto muito de ler, estudar, saber o que aconteceu na nossa história, saber o que tá se passando no mundo. Todo dia leio o jornal. Eu até me inscrevi numa escola lá em Copacabana, tava decidido a tirar meu diploma do primeiro grau.
Até aí tinha achado notável uma pessoa com tão pouca instrução ter inclinação para leitura e querer se manter atualizada. Já tinha ficado claro que era bem articulado e alguém esforçado.
Ele continou:
— Eu tinha então que fazer prova de história no colégio. Arranjei aqueles áudio-livros, estudava em tudo quanto era lugar, sabia tudo da história do Brasil, Política do café-com-leite, Estado Novo, AIs. Cheguei para fazer a prova empolgadão, ia tirar 10. Sabe que nota eu tirei? Zero! A professora veio me dizer que não tinha entendido nada do que eu havia escrevido. Tinha respondido todas as questões e ela fez isso! Falou que eu não sabia escrever. Poxa, por que eu vou usar ch se posso ter o mesmo com com x? Sei que eu cheguei em casa e falei para a minha mulher "por que você foi inventar de ter filho de um burro orelhudo como eu?". Aí eu abandonei.
— Não, não diga isso — falei. — Burra foi a sua professora. Se ela não tinha entendido o que você escreveu, era para ela te orientar a resolver esse problema, te ajudar nisso, te dar reforço. Você não pode levar zero numa prova quando sabe a matéria, ela nem tentou entender nada do que estava lá. Resultado taí, um aluno esforçado, interessado, que saiu da escola.
Ele concordou.
— E, olha, você não é burro. Nem um pouco. Tô aqui falando com você, tô vendo como você é. Você gosta de se informar, foi estudar porque quis, sabe de coisas sobre a história do Brasil que eu não sei. Tem áreas muito boas para alguém como você. Imagina um professor de colégio que já viu o que você passou? Nunca vai cometer essa burrice que sua professora fez.
Aí ele sorriu.
— Poxa, eu tinha muito vontade de estudar mesmo, sabe? Gosto de uma porção de coisas, de desenho, me amarro no Giger.
Aí eu fiquei mais impressionada ainda, o cara conhecia, chamava pelo nome, o criador do Alien, a criatura que até hoje deve dar pesadelo na Sigourney Weaver. Não tinha o primeiro grau completo mas olhava com um olho muito crítico para as coisas e os gostos dele fugiam do óbvio.
— Olha, sinceramente, cara, nada te torna incapaz de ir estudar. É um esforço, com certeza, mas assim você pode garantir uma vida melhor para você e um futuro melhor para o seu filho. Não abandona essa idéia, você pode.
Nessa hora, meu ônibus chegou. E até hoje eu amaldiçôo esse momento. Meu ônibus sempre demorava, eu morava muito longe dali, não podia deixar passar.
Lembro que da janela vi ele ir perguntar a outra moça o que ela fazia, com olhos curiosos. E carrego comigo o arrependimento de não ter combinado com ele aulas de português. Sei que as freiras que eu conhecia ali perto me ajudariam cedendo o espaço do pátio da igreja, seriam apenas alguns alunos (pelo menos no início). E eu teria a paz de espírito de nunca mais ficar me perguntando se ele realmente se deu conta da inteligência e do valor que ele tinha. E assim, cada vez que eu passasse na frente daquele mesmo ponto de ônibus, eu não me esticaria para saber se ele ainda está ali vendendo bala.

Um comentário:

xistosa - (josé torres) disse...

Eu também me arrependi ...
De ouvir o discurso de Bush, no dia 18 ou 19.
Tomei nota num papel qualquer, mas esqueci de tirar a tampa da caneta ...
M/mulher é professora de Química.
S´dá aula ao último ano antes da faculdade, (12º ano).

O português da grande maioria dos alunos é só pra rir.
Parece escrito por chinês ... é que aqui, o mercado todo e de tudo, está invadido pelo chinês.
Lápis, caneta, sapato "terno", cadeira, copo, cama, microondas, lâmpada, "escaner", plasma, sapatilha, meias ... até quem quiser, casa com uma chinesa ...
mas se não se quer "esforçar", contrata um chinês para fazer um filho na mulher !!!"rsss, rsss, rsss.
Mas é tudo chinês.

Nas provas escritas, Testes ou exames, por vezes rio-me como num filme do "Cantinflas" ou do "Jerry Lewis", (deste nunca gostei, mas isso é outra coisa).
Quanta sabedoria se perde por causa do autor não saber ler ou escrever ???

(mais uma vez fiquei sem o disco do meu computador.
"Pifou"!!!
(por aqui, "pifar" também pode ser uma bebedeira ... e antes fosse, mas neste caso é um "sinónimo" de avariar.)

Fiquei completamente NU!!!
Nem sei o que fazer aos blogs ...

Vou vegetar e pensar ...
Um abração.