sexta-feira, março 26, 2010

Um país de quê?

Depois de uma longa e antiga tradição de discursos de salve-salve-Brasil, a onda já tomou outra crista. Já faz um tempo que um texto pretensamente escrito pelo Arnaldo Jabour corre pelas caixas de e-mail; digo isso porque vejo ultimamente uma moda por aí de escrever qualquer coisa com espírito crítico e assinar pelo já referido jornalista ou então pelo Luís Fernando Veríssimo para dar força e conceder aceitação ao conteúdo. E acho sensacional ter ousadia para escrever qualquer coisa já que se está protegido pelo nome de outrem, ou ninguém. Mas voltando ao texto, sim, é bem interessante, com a ressalva de que não concordo com tudo; ele mesmo já compartilhou.
Uma obra mais recente dentro do mesmo espírito é a tirinha do Allan Sieber, que, aliás, não se furta de jeito nenhum a criticar qualquer coisa e apontar aquilo que ele acha errado. O problema é que as pessoas tomam críticas como ofensas, quem critica nunca está certo, quem reclama ou discorda é ignorante; se alguém impõe um limite ou diz um não de forma educada, é um escroto. Então se eu tomo esse papo oba-oba de que lugar melhor não há como furado, é porque sou uma entreguista-colonizada-melhor-amiga-do-Diogo-Mainardi, não mereço ter meu passaporte azulzinho. Acontece que eu concordo com Sun Tzu, para a gente poder consertar nossos defeitos, precisamos aceitá-los e conhecê-los — e aí está outra evidência: se eu fosse nacionalista mesmo, citaria algum filósofo tupiniquim, como o Caetano Veloso ou o Jô Soares.
Eu confesso, brasileiro tem coisas que me dá nos nervos mesmo! Acho que a fofoca, por exemplo, é algo que corre em nossas veias, o simples fato de você andar na rua ou ficar em casa já dá motivos e direitos a todos de montarem julgamentos intrincados em suas cabecinhas e, naturalmente, darem seus pitacos na sua vida como se fossem muito importantes. Mas onde eu penso que mora mesmo a origem de todo o mal da nossa sociedade está na covardia. É ela que permite desde a nossa situação política vergonhosa até episódios surreais como toda uma faculdade chamando uma mulher de puta aos berros. Repetindo o que o mesmo Allan disse naquela época, "num coro de 'machões' todo mundo é super corajoso".
Não bastasse isso, há também no povo um dispositivo para proteger e assegurar sua covardice: o discurso do oprimido. Mais vale argumentar que o cara é pobre-coitado-ignorante do que analisar uma situação e ver quem está certo. Numa briga, mais vale cair no chão em posição fetal e chorar feito uma menina de trança por clemência. Você pode até levar uma surra de primeira, mas provavelmente uma turba insandecida vai vir em seu socorro, aplicando golpes baixos no seu oponente. O problema é que ela não vai ficar para receber agradecimento, cada um vai correr para um lado porque o seu oponente pode querer se proteger e ninguém vai querer segurar essa onda.
Se tem uma forma que eu considero muito precisa de descrever o povo brasileiro é contando uma historinha:
o sujeito estava correndo fugindo do ladrão, até que, ao cruzar a rua, foi atingido por um motorista que passava dentro da velocidade permitida com o sinal aberto para ele. O povo brasileiro, que viu o acidente, atacou o carro, arrancando o motorista de trás do volante, jogando-o na rua e chutando-lhe todas as partes que eram possíveis. O ladrão, responsável por tudo, sai ileso. O motorista que só estava ali passando e fez de tudo para evitar o acidente sofreu as conseqüências e não tem pra quem reclamar.
Por que estou eu blablablando tanto?

Roberto Podval, advogado de defesa do casal Nardoni foi agredido por estar fazendo o trabalho dele. Sim, eu acho que o casal é culpado, opinião minha, mas eu reconheço que é essencial alguém "aceitar sujar as mãos", ao meu ver, para que possa haver cumprimento da justiça no país, dado os moldes nos quais ela é firmada. E sobre o ocorrido, o advogado fez uma colocação bem interessante:
"Eu tenho pena dessas pessoas hoje que gritam por justiça, porque estarão amanhã batendo na porta de um advogado e pedindo pelo amor de deus pra segurarem a fúria do Estado contra eles".
E eu digo que, pelo menos do Estado, há possibilidade de segurar a fúria. Do povo, não.

2 comentários:

Fabio disse...

O que acho mais curioso é ver tanta gente à toa, em pleno dia útil, querendo tomar conta da vida dos outros. Esse caso dos Nardoni nada tem a ver com segurança pública, não é assunto de interesse coletivo e não justifica uma horda de desocupados criando tumulto.
Mas esse é o país do "oba oba", o povo adora uma confusão, não importa se é carnaval ou julgamento de alguém, o importante é juntar um monte de gente e ficar longe de trabalho :-)

Michele Mitsue disse...

A reação pública, o assédio da imprensa e dona Xuxa e Ivete falando do caso, sinceramente me aborreceram. A população (como no caso da Daniela Peres) agiu como mulas estimuladas com o que viram na TV (vítimas de uma agenda setting), uma comoção pública programada. Não digo que o casal não seja culpado e que as pessoas não tem o direito de manifestar o que pensam, mas me irritou e continua me irritando a forma como o brasileiro encara a palavra "justiça": fiquei espantada com a reação das pessoas, sério. Foi um circo desnecessário! Acho que a justiça não justifica os meios usados tanto pela população quanto pela imprensa, que indiretamente já havia condenado o casal.
Sinceramente, esta atitude não serve de exemplo para uma população ignorante e mórbida como a nossa. E tratei desse tema no meu blog também. Que sorte que não fui a única a me sentir incômoda com tudo isso.
Beijos Kath!