sábado, maio 08, 2010

Falando de eu.

Pensem comigo: quando uma mulher, por exemplo, se dedica aos filhos ela é uma boa mãe. Quando uma pessoa, então, se dedica ao seu cônjuge, é um bom marido ou uma boa esposa. Caso uma outra pessoa se dedique ao seu trabalho, é um bom profissional. Caso uma pessoa se dedique bastante aos seus pais, é um bom filho ou filha. Infelizmente, existe uma lacuna em nossa língua — e ignoro outras línguas que não partilhem desta falha — em que o único termo que temos para chamar uma pessoa que se dedica a si mesma é "egoísta". Sendo assim, não há meios precisos e consagrados de falarmos de pessoas que não deixam de marcar uma consulta médica, não sacrificam suas refeições, ou ainda não andam maltrapilhas por falta de tempo de comprar roupas, sem falarmos daquelas que querem submeter tudo e todos aos seus modelos, vontades, necessidades e desejos. Particularmente, eu acho isso engraçado numa sociedade que preza tanto pelos asseios e cuidados de cada um, tal qual como um cabelo bem cortados, trajes elegantes e atuais e unhas feitas.
Além disso, fica muito complicado, então, dar um conselho a uma pessoa que é totalmente ausente a si mesma, para que ela tenha mais atenção consigo, sem que ela escute isso com uma certa resistência. Afinal, como dizer a uma mãe zelosa que ela precisa ser um pouco mais egoísta?
Por outro lado, cria-se uma zona delicada quando este conselho é distorcido para além daquela divisão ausente em nosso vernáculo. E assim viramos réus, aquilo que dissemos é usado contra nós.
Talvez, o problema — pelo menos falando com a boa mãe — fosse mitigado se soubéssemos precisamente o significado do termo tão discutido: egoísta é aquele que pensa mais em si do que em mim.

Um comentário:

M. disse...

Sempre achei que as palavras possuem o dom de beijar...
seu blog foi um alento hoje para minha alma. Parabéns.
beijos
Mennah