quinta-feira, março 29, 2012

Fácil, extremamente fácil.

Há alguns anos, estava eu andando no Catete, bairro tradicional do Rio, para aqueles que não sabem. Eu fui fazer um lanche antes de um ensaio que tinha. Parei na birosca e me dirigi ao caixa. Pedi um salgado e um refresco. Uma menina do meu lado me chamou:
— Tia, você pode comprar uma bala?
Eu não gosto de esmola, não dou dinheiro para criança porque sei que tá sendo explorada pelos pais. Mas tem dias que eu acordo badauê.
—  Ok, me vê um jujuba então.
E quando acordo badauê, tem que aproveitar.
—Tá com fome?
Ela acenou que sim.
—Escolhe aí um salgado. E dá um refresco aqui pra menina, por favor.
Ela pegou o lanche dela e me agradeceu antes de ir embora, com sua voz e seus olhos baixos.
—De nada, querida. Tenha um bom dia.
Quando eu me voltei para cravar os dentes no meu bolinho de aipim, veio um sujeito e me cutucou:
—Aí, você não acha que ela tem dinheiro pra comprar um salgado?
Nessa hora, naturalmente, todos olharam para mim para saber o que eu poderia argumentar diante daquela acusação terrível de ter dado um salgado para a menina.
—Olha, o que eu acho mesmo é que há muito tempo ela não tem ninguém perguntando a ela o que ela quer. —Até os carros lá fora pararam. E eu continuei —mas quem é você? É o dono do bar? Ou o pai da criança? Porque o dono do dinheiro eu sei que não era. Olha, você vê gente o dia todo atravessando o sinal vermelho, jogando lixo no chão e parando em fila dupla e não fala nada. E agora que eu dei um lanche pra menina você vem me dar lição de moral?
O que ele respondeu eu nem me lembro. Acho que ninguém se lembra, estavam muito preocupados esperando ele responder a acusação que recebera.
Esta história tem quase 10 anos. E cabe explicar porque estou publicando ela hoje.
Eu tive uma aluna, uma menina de 7 anos, negra, com uma mãe de pele e olhos muito claros. Trata-se visivelmente de uma adoção. Deixa só eu falar que se trata de um dos gestos mais lindos que acho existir neste mundo. Daqui a alguns anos, eu vou adotar pelo menos uma criança pra mim, está definido há anos na minha cabeça. Então, um dia conversando com a secretária da escola que trabalho, enquanto havia outro aluno na recepção, eu fiquei sabendo que ao que tudo indica a mãe da menina era lésbica e tinha decidido formar uma família com sua parceira. Sim, "ao que tudo indica", porque o comentário ficou com ar de fofoca, e quando as pessoas querem fofocar e gostam disso, são capazes de dizer qualquer coisa.
Foi então que o aluno que ouvia a conversa disse ser contra a adoção de crianças por homossexuais.
—  E por quê?
— Porque influencia, né?
Ótimo ponto. De todos os problemas que uma pessoa pode ter em sua criação, de todas as falhas de caráter, de todos os males do ser, atração por pessoas do mesmo sexo é o maior pesadelo, bate mau caratismo, vícios, comportamentos psicóticos e todo os outros. Mas eu me limitei a dizer:
— Se fosse assim, não haveriam gays, porque em vias de regra, as pessoas nascem de pais héteros, que tiveram relações com gente de outro gênero.
—Ah, mesmo assim, eu sou contra.
— E o que sugere, então?
— Como assim?
— Sim, qual a solução que sugere para casos assim?
— Ué, que não se adote.
— Não entendi.
—  É, ué, que não seja liberada a adoção.
— Mas isso não é uma solução, é deixar como está.
— Isso.
— Então você sugere que a criança no orfanato, sem qualquer carinho, amparo, amor ou senso de lar e família é melhor do viver numa casa em que haja uma pessoa que a ame que, por acaso, é gay?
Ele não conseguiu articular sua resposta, mas estava em seus olhos que, sim, era isso que, na cabeça dele, era melhor. Diante do silêncio dele, eu me limitei a olhá-lo nos olhos, esperando que me respondesse. Mas eu devo admitir que queria mesmo que ele dissesse que sim, porque eu tinha uma pergunta na ponta da língua pra isso, "por que você não pergunta à criança o que ela quer? Será que a minha aluna é mais feliz no orfanato ou em casa com a mãe sapata?"
Será mesmo que ele não saberia a resposta?





3 comentários:

AlvaroCastroJr disse...

:) gostei

Carlos Reis disse...

Meu comentário ficará em dois pedaços, pois não coube no limite de caracteres:

Aí, você não acha que ela tem dinheiro pra comprar um salgado?

Essa pergunta foi o que eu gosto de dar nome de “convite”. Esse foi o estímulo que lhe fez construir os argumentos da resposta que viria a seguir e o que inspirou a sua atitude interna enquanto respondendo.
Onde você estava?
- Numa birosca do Catete.
Que horas eram? Dia, noite? Vai ser muito difícil que eu acerte, mas trabalhando com probabilidades, vou brincar de chutar levando em conta: “criança”; “tipo de comida”; “distância entre pontos provavelmente percorridos por você”; “pessoa disposta a criticar uma decisão de uma jovem de vinte poucos anos, de estatura alta e porte que transmite segurança”, etc... Eu chuto algo entre 10:00 e 14:00 horas.
Entre 14:00 e 17:00 acho menos provável se parar para comer. No fim da tarde, as pessoas em média estão terminando um dia de trabalho, logo é menos provável que queiram propor conflitos, ao invés de simplesmente voltarem para casa para ver novela. Se você parou para comer salgado e refresco, estava com pressa e com fome: bem provável que, ou saiu de casa sem café, ou não tinha tempo de almoçar. Pressa somada à necessidade básica instintiva de comer provavelmente resulta em alguma tensão latente.
Qualquer criança que pede algo a alguém possui um recurso muito eficaz: Sabe os olhos do “gato-de-botas do Shrek”? Além disso, é cientificamente comprovado que “choro de criança” é quase impossível de não deixar um ser humano tenso mesmo. Isso ainda é pior com mulheres, pois elas carregam o famoso “instinto maternal”. A menina não estava chorando, mas digamos que o que fazia era usar algo que tirou da mesma “caixa de ferramentas” do “chororô”.
Aquilo que você mencionou como pressuposto, eu concordo ser realmente plausível. Há alta chance dos pais estarem explorando a menina mesmo. Então, você me fez questionar: quem era aquela menina?
Imaginei aqui comigo essa menina com mais de 7 e menos de 10 anos, por mera intuição. Os pais dela nunca disseram o que os meus e os da esmagadora maioria que conheço costuma falar para os filhos pequenos: “não fale com estranhos na rua e não aceite nada deles”. Reiteremos aqui ainda o tal pressuposto da alta chance dos pais dela até mesmo a usarem para ganhar algum dinheiro.
Essa menina, então, provavelmente se desenvolve num contexto de poucos limites e muitas carências. Evocando a velha máxima de que “tudo tem dois lados”, temos uma criança sem pudor de pedir, mas sem nenhum filtro moral. Quando você entrega a ela o que ela pede, sua ação provoca duas linhas simultâneas de efeito:
1) Ela vai aprender que ao pedir daquela forma, para aquele perfil de pessoa tem alta probabilidade de conseguir o que quer.
2) Ela vai ter razões para ter fé na boa vontade de pessoas que emanam o tipo de carisma que você expressou.
Pergunto: Isso é bom ou ruim?

Carlos Reis disse...

Se você começou a responder diretamente, pare. Antes de responder, qualquer um que receber esta pergunta deve antes se responder três questões muito mais importantes:
- O que você quer que aconteça? Por que você quer isso? Qual a finalidade da sua ação imediata em relação a isso?
Há se levar em consideração o outro lado ainda mais determinante no curso da história: “Há quase 10 anos, quem era essa pessoa que hoje se tornou você?”. Isso eu deixo contigo.
Sobre o cara que perturbou:
Chato ele, sem dúvidas! Impertinente! Por outro lado, pela lógica fria e calculista, ele tinha algum motivo, mesmo que frágil. Brinquemos de lógica novamente, dando voz ao famigerado acaso:
O cara está numa birosca. Se ele quis interferir, ou achava que sabia, ou poderia até saber mesmo algo que você não sabia. Suponho que esse possível conhecimento viesse do fato dele constantemente estar vendo aquela menina por ali, sempre fazendo a mesma coisa. Isso me faz considerar se ele não trabalhava ali perto da birosca, ou se não era até funcionário de lá mesmo. Dono, eu acho que não. Você, depois que você descreveu como o interpelou, deixou essa possibilidade fora de questão para mim. A outra linha seria a dele ser algum frequentador assíduo tipo um dependente de álcool, mas, pela energia do comentário impertinente dele, é mais provável ser alguém que dá muito valor ao esforço de trabalhar mesmo.
O que será que ele queria, mas falhou? E por que ele queria isso?
Se passar pela sua cabeça a pergunta “mas você não acha que ele mereceu a resposta que eu dei a ele?”, minha resposta é: “Claro!”. Ele foi impertinente. Ele assumiu um risco ao te questionar e falhou. Seu retorno foi uma oportunidade para ele rever os próprios motivos e métodos. Eu te faço uma pergunta, entretanto: “vc acha que ele aprendeu alguma coisa de fato, ou que ele se fechou, não te ouviu e ficou revoltado de levar bronca?”.

Quanto ao caso da menina adotada:
Começo dizendo que é evidente o grau diversas vezes superior com que você lidou com a situação recente em relação à primeira, de quase 10 anos atrás. O aluno a quem você questionou no fim teve sorte de você ser uma dama com tato e educação. Eu o pressionaria até ele surtar e pedir pra sair! Obrigado por me dar mais uma referência para que eu me refine.
Mas eu pergunto:
O que você queria? Por que queria? Qual a finalidade dos seus questionamentos?
Você estava em posição de influenciadora. Quem sabe fazer perguntas de qualidade é definitivamente uma pessoa influente. O que seu aluno levou para casa? Um emergente sistêmico, uma epifania, uma lição...? Ou ele saiu dali na defensiva e com a mesma opinião, só que mais fechada, como que em um muro fortificado de orgulho e tolice?
Já leu a República, de Platão? É chato a vera! Não recomendo mais do que 5 ou 6 páginas do início, mas não menos que isso também. A forma em que tio Sócrates enche o saco dos outros é o que é importante. O conteúdo, eu acredito ser bom apenas para juristas, filósofos e curiosos meio caóticos.
Já viu aquele filme “Corrente do bem”(Mimi Leder)? Deve ter visto. Caso contrário, procure assistir e em seguida, se puder, ainda reveja aquele lá da Amelie Polin. Se vier aquela sensação de “ahhh!” e quiser outros mais, recomendo rever: Gladiador (Ridley Scott) e Hero (Zhang Yimou).
Sua postagem me rendeu esse comentário e vai me render um post no meu blog também. Adorei essa! Estou pensando se a gente não pode virar colaborador assim um do outro naturalmente. Nossas ideias se complementam. Continue descarregando esse dedo no teclado aí! Quem sabe a gente não ganhe um Nobel, Pulitzer ou divida ainda um “Milk Shake”.