segunda-feira, março 26, 2012

Sobre meridianos e budismo

Nasci em 1981. Não façam as contas, por favor, só remetam-se àquela época. Ou a gente gostava de Coca ou de Pepsi, ou comia no McDonald's ou no Bob's, ou misturava no leite Nescau ou Toddy. Ainda que o muro tenha caído em 1989, a gente viu por muito tempo o mundo dividido entre vermelhos e brancos para parar de acreditar que o super-vilão não tem sotaque russo. O mundo sempre foi bipartido. Ok, não o mundo, mas a nossa maneira de vê-lo. Nisto se basearam as religiões, ensinando que há sempre o Bem e o Mal, e até mesmo períodos artísticos que exploravam os contrastes entre luz e sombra, piano e forte, curto ou longo.
Mesmo hoje a gente ainda não se livrou disso. Talvez o fato de que não exista mais um vilão mundial — sabemos que muitos daqueles que apontaram para eixos do mal e exércitos do terror foram tão ou mais terríveis do que seus supostos inimigos — faça com que a gente busque dualidades nos microcosmos, como vegetarianos e todos os outros, eu-com-a-minha-religião-pura-e-verdadeira e o resto do mundo ímpio e desviado, gente que ama animais e os outros desalmados que não postam fotos de bichinhos, por aí vai. Engraçado inclusive, pelos meus dispositivos com a maçãzinha, sou catalogada no grupo de Maclover,  coisa que não posso contestar. Só queria que entendessem que na verdade sou uma Microsofthater.
 Voltando, o que é interessante observar é que esta sociedade sci-fi HD pós-moderna não tira da gente a maneira reta —ok, sejamos francos, simplista —de vermos a vida. Lembram outro dia que disse que a gente adora um esteriótipo para poder organizar a vida melhor? Como simplificar pouco é bobagem, a gente quer ter que lidar só com dois. Eu acho mesmo que não importa quantos Burger King, Giraffas, Habib's ou outras opções de fastfood tenhamos, a gente não vai escapar desta dicotomia, e isso porque ela está dentro das nossas cabeças, das nossas almas. Crescemos olhando nossos pais, um sempre fazendo o papel de policial bonzinho e o outro nossas mães nos ensinando a comer direito e mandando a gente pro banho. Ainda que papai e mamãe possam ambos terem sido paz e amor — ou crime e castigo —acho difícil a gente não se contaminar com o fato de que o mundo pode ser dividido entre norte e sul; ou oriental e ocidental. Fica fácil então nos identificarmos e acharmos justo e orgânico que também sejamos bipartidos, razão/emoção. Há óperas inteiras que falam do drama entre fazer aquilo que se deve e aquilo que se quer. Isso dá um papo muito longo. Dá pra falar da força da sociedade nas nossas vidas, nos empurrando para aquilo que não é o que precisamos, e daí venha este embate de forças, este encontro, que se faz de forma truculenta, entre o que há dentro de nós e o que devemos ser para o mundo, que nos deixa sufocados no meio disso tudo, sem saber ao certo o que somos, a que viemos. Baseado nisso, inclusive, eu já tracei algumas máximas na minha vida, a principal delas diz que só uma pessoa com personalidade forte —podendo até tender à neurose, misantropia e boca-suja — é capaz de ter um caráter bom, porque a vida nos impulsiona e nos cobra coisas que nem sempre está em nós fazer. E se não soubermos muito bem quais são nossos valores e aquilo que é certo e errado pra nós mesmos, permitiremos que nossos passos e ações se percam em caminhos que não cabem a nós. E —quem tem sabe —proteger sua personalidade e seus valores não é para os fracos.
Sim, a gente sempre vai estar sujeito a uma certa pressão deste encontro, ir à festinha ou correr para cumprir os prazos num sábado à noite; calar ou ser firme e rigoroso quando alguém que amamos faz algo que não aprovamos, e uma infinidade de outras situações que nunca vou saber cobrir.
Eu? Eu sei lá. Acho que este meu histórico que nunca me deixou grudar muito em nenhuma doutrina, ainda que simpatizasse com o Budismo, ou vai ver que foi a criação do Chato-pai que sempre me mandou me questionar de fato sobre o que eu ia falar, me faz tentar escapar um pouco desses rótulos. O Budismo fala que para abraçarmos as alegrias da vida, precisamos também abraçar suas dores. Bom, pelo menos foi isso que li em algum manualzinho fácil de single-serve portion filosofias. Mas  uma mãe que deu a luz entende bem esta idéia.
Eu não acredito, por exemplo, que haja esta briga dentro de nós. Acredito que o caminho que queremos seguir é um só, o da felicidade. Isto nem sempre significa sermos felizes, mas sim buscarmos o que nos faz bem. Sendo assim, esta é a busca do nosso ser. Podemos deixar que nossos sentimentos guiem esta nau e apontem seus horizontes. Eu sinceramente não acho que haja nada de errado em seguí-los. O que eu acho é que às vezes eles se confundem, viram o horizonte, mas não enxergaram os perigos das águas à nossa frente, ou algo que pareceu de longe ser um lugar paradisíaco não passa da ilha de Lost.  E aí é imperativo que venha a Razão para nos tirar das enrascadas e não deixar que nos choquemos com um iceberg, todo mundo sabe o que acontece daí.  O que quero dizer é que não são coisas separadas, que nos levam em caminhos opostos. Não há briga entre eles. Às vezes uma discussão boba, mas são sempre amigos, fazem parte da mesma equipe, querem na verdade a mesma coisa. Em geral, eu vejo que quando há uma briga séria entre eles, quando cada um quer andar em direções opostas, significa que nossos sentimentos estão sendo imaturos, nossa criança interna está esperneando e ignorando a voz da sabedoria. Ou então nos apoiamos demais nos motivos racionais como uma forma de não sairmos da nossa região de conforto. Meio que aquela diferença entre o "quero" e o "queria".
Outro coisa que penso é que se os grandes heróis já sofreram, podemos tentar evitar ou ao menos mitigar um pouco dos nossos erros. Se olharmos para suas trajetórias, vemos que na grossa maioria, ou bem seus destinos são trágicos ou bem são finais felizes, em que tudo magicamente se resolve. Quem vive mesmo, à vera, sabe que ambas as coisas não existem. Não existe a tragédia como fim. Sim, coisas ruins acontecem, e com raras e exponenciais exceções, é da crise e da dor que encontramos o caminho para o novo e para o belo. Creio de verdade nisso, nunca na minha vida algo de tão ruim aconteceu que não me deixasse em um outro ponto novo, com novas possibilidades, ainda que dificuldades viessem junto. Outra máxima da minha vida é que temos problemas para descobrirmos o quão grande podemos ser. Na outra mão, quem ainda vai cair neste papo de feliz-para-sempre? Alguém acha mesmo que alguma princesa da Disney ou a Julia Roberts em Uma linda mulher jogou todos os seus problemas para longe depois do ponto final desta sentença? A vida é mutável, transmutável, dinâmica. Novas situações requerem novas equações.
O que eu digo é que nem bem ao teatro antigo, nem bem à comédia romântica. Podemos provar tanto da alegria e da tristeza, e é bom entendermos suas dimensões. Quando há discordância entre os nossos capitães internos, é bom analisarmos bem até onde nosso emocional é válido no que pede, assim como também até onde nosso racional não está simplesmente cristalizado ante ao perigo.


Um comentário:

Carlos disse...

Interessante sua reflexão. Uma tempestade de ideias, abrindo incontáveis conexões.

Sobre a dúvida fundamntal, você me fez pensar na famosa lei da Parcimônia, não sei por quê. Veio-me a cabeça:

As variáveis de um problema não devem ser nada além daquelas implicadas na própria situação específica. (Com minhas palvras)

..."Lex Parsimoniae, mais conhecida como "A Navalha de Ockham" - entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem." ("as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade").

Estou tentando entender como você me levou a pensar nisso até agora... puro entretenimento!

hummm...

Se curiosa, passeie na mente de um certo camarada através de algumas "Coisas Significativas" presentes em certo Artefato de vozes celestiais. "Se Ele fosse uma criança..."