terça-feira, abril 24, 2012

Novas paredes

Sempre pensava no mar como *la mar*, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam bóias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem *el mar*, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.
(O velho e o mar, E. Hemingway, 1952)

Lendo estas palavras sobre o heróico Santiago, eu me lembro de um texto que li há alguns anos e que se não fosse por este avatar moderno de Deus, o Google, eu jamais saberia quem escreveu. Cidades são de fato femininas, só se revelam quando querem, se é que um dia vão querer, te chamam na base do psiu!, e toda uma vida não é suficiente para conhecê-las e desvendá-las. Sequer conseguimos limitar e definir de forma suficiente o que são. Esta amálgama entre concreto, claustros, vidro e vultos, torres e túneis, pragas, pontos, alvenaria e aliterações sequer arranha o céu do cosmos que comporta, do universo que proporciona ou dos paradoxos que sustenta. Um deles, Ricardo Freire mencionou ao final do seu texto, "Mesmo porque, de fato, a única maneira de conhecer de verdade o lugar em que se vive é viajando. Quanto mais lugares a gente não conhece, melhor a gente conhece o nosso".
São nestes formigueiros matriciais, onde a comunicação corre à frente do tempo atravessando paredes, que de dentro de suas colmeias cromadas, seus sobreviventes provam da solidão.
 E nesta solidão fractal, vestidos com aço que a metrópole dá e as máscaras que a metrópole pede, que nos percebemos cada vez mais nús, obrigados a nos agarrar àquilo que não temos.
Mulheres são multifacetadas, singulares, de fato, nunca iguais umas às outras, mas estão tendo sempre que suprir aquilo que sua antecessora não foi capaz ou generosa em conceder. E sendo assim, nesta busca infinda de correr sempre atrás, não é difícil acumulá-las no trajeto. Mulheres ou cidades, quem sabe?
É por isso que àqueles que realmente buscam ter algo de seu, ao invés de tirar o que há nos outros, com o tempo, as caminhadas, as paixões, começam a olhar pra si mesmos e tentar descobrir o que todo esse caminho deu-lhes de verdade, ou seja, aquilo que mudanças e términos não podem tirar, aquilo que enche o peito e não pesa nos ombros para ser carregado. E então chegamos ao continente que abriga e comporta tudo o que realmente precisamos, e este somos nós mesmos. Como aqueles anciãos falavam de que o caminho não importa, e sim o caminhar.
E quando se conhece este conteúdo, nenhum destino é incerto ou assustador.
Sabendo – ou apenas suspeitando disso – a minha casa, que deu nome a este blog hoje está longe de mim. E enquanto eu tentava prever quando este momento chegaria, me perguntava se fecharia as portas do meu Casa. Mas agora, de longe, fica mais forte a sensação de que lar é onde a gente guarda o que a gente tem de verdade. Sendo assim, não tem como fugir de casa, no máximo a gente muda a cara das coisas.



Um comentário:

Carlos Reis disse...

(:-...

Lindo isso!

"Lar é onde está o coração!" como dizia Plínio, o Velho.