domingo, junho 27, 2010

Caixinha de surpresas

Impressionante como a Copa do Mundo operou mudanças surpreendentes em mim — algumas nem tanto, como minha mania de escrever notícias de ontem, afinal só estou conseguindo escrever algumas linhas sobre o campeonato depois de entrarmos na fase final. Voltando, sim, mudanças incríveis! Para vocês saberem, na Copa de 98, por exemplo, era saber que o Brasil ia entrar em campo que eu saía para dar uma volta, nem me dava chance de me emocionar mais uma vez com o trecho do nosso hino. E eu gostava de poder andar no meio da avenida, sentar na praia e não ver viva alma. O engraçado era quando encontrava alguém, do outro lado da rua. Primeiro, havia uma troca de olhares de estranhamento, como quem diz "o que está pessoa está fazendo aqui, invadindo o meu espaço?", mas então ocorria uma identificação, e acenávamos com a cabeça, aqueles acenos silenciosos, feito com os olhos vivos e um simples movimento de pescoço, lento, como se pertencêssemos a alguma irmandade. Por mais estranho que possa parecer — e é —, era bom. É ter o privilégio de ter uma rua só sua, ver as coisas sem o manto da ocupação, quase como protagonizar Eu sou a lenda sem os carros atravancando o caminho e com o consolo de que sua espécie não acabou de uma forma terrível, só vai durar 90 minutos. E hoje, na Copa de 2010, eu já não sou mais essa pessoa. Eu quero ver os jogos. Nada de errado nisso, certo? Definitivamente! Eu continuo sendo esta pessoa estranha, militando contra a TV, passando horas a fio ao piano estudando John Cage's 4'33'' — às vezes eu erro, ponho fermattas... —, conversando com o Clint e agarrando coisas nas lojas; mas me deixem com o meu futebol. Na última sexta-feira, eu nem mesma me reconheci. Vejam vocês, fui pegar carona na TV da minha vizinha para ver a partida, estava sentada no sofá, fazendo meus comentários, até que ela pergunta:
— Cadê o Robinho, oras?
— Robinho tá no banco. Estamos sem ele, Kaká, Elano. — E voltei a olhar para a tela, fingindo que estava tudo bem. Mas esperem, meu coração bateu quase descompassado.
Como assim? Aquilo era inédito, eu tinha um conhecimento do jogo antes do jogo! Eu sabia da situação e tudo mais. Com certeza a Kath adolescente se envergonharia de mim! E as novidades não param por aí, eu até mesmo virei fã do Júlio César, e chego a achá-lo muito mais útil em campo do que Júlio Baptista jamais vai ser. Gente, quem sou eu? Não não, não estou incomodada, um pouco surpresa sim, mas incomodada de forma alguma. Só peço a colaboração de vocês, se eu um dia vir aqui comentar sobre trama de novela, por favor, façam-me uma intervenção. Gracias!

2 comentários:

Ricardo Artur disse...

haha! O mundo é realmente surpreendente!

xistosa - (josé torres) disse...

Já nada me surpreende ... bom mesmo na hora do futebol .. é uma hora depois do fim de todos os comentários que enxameiam a televisão.
Já nem sei se sou deste "tempo" ou da era dos trogloditas.

Um bom fim de semana.